02 abril 2010

RAIZES

Crônica em homenagem a Seu Vicente, escrita por Monsenhor Pedro Rocha de Oliveira - 23 de Janeiro de 1968

Ainda debaixo de doloroso impacto emocional, encontra-se, prosternada de dor e coberta de luto, uma das famílias mais tradicionais do Crato – a família Bezerra de Brito - com o falecimento, sexta-feira última do Sr. Vicente Alves Bezerra, chefe de numerosa prole e cidadão dos mais respeitáveis de nosso meio.
Na verdade, o infausto acontecimento, não somente enlutou uma família de nossa sociedade, como abalou profundamente os círculos sociais do Crato. Vicente Alves Bezerra era uma pérola escondida, uma personalidade de alto moral, enriquecida por qualidades pouco comuns ao comum dos mortais, nestes tempos tão adversos à riquesa moral dos homens.
Conheci o finado Vicente Alves Bezerra, desde quando iniciei, nesta cidade, o meu Ministério sacerdotal. E não foi difícil enxergar, logo nos primeiros contatos com os homens desta terra, na pessoa do pranteado extinto, a figura do “Homem Justo”, no sentido autêntico da expressão. Pareceu-me logo o Vicente Bezerra, pelo seu modo de viver em sociedade e em família, como um herdeiro das virtudes de São José, Protetor dos bons cidadãos: simplicidade, humildade, religiosidade, labor e recolhimento.
Homem simples e, consequentemente verdadeiro, porque a simplicidade é a verdade. Varão humilde, não somente pelo lado homem da condição econômica, mas, sobretudo, no sentido sobrenatural.. Uma espécie de violeta humana que opulentava o patrimônio moral de sua família.
Cristão de credo e de mandamento. De religiosidade vivida nas vinte e quatro horas do dia. Um púlpito vivo de envergadura moral e religiosidade, em casa e na rua, direi melhor, na vida privada e na vida profissional. Homem do trabalho, escravo do dever, com elevado e rico senso de responsabilidade profissional, provado nos balcões de “A Pernambucana” no início de sua juventude, e nos longos trinta e seis anos consecutivos de bancário, sem férias nem lazer profano. Homem recolhido, silencioso, nunca, porem, taciturno, sempre refletido, medindo as palavras nas rodas, preferindo usar mais o ouvido do que a boca, colocando os lábios mais a serviço do sorriso sereno e ligeiro do que em função de palavras inúteis. Parece-me fora bem compenetrado da máxima do Evangelho: iremos prestar conta a Deus até das palavras vãs e inúteis. Homem do lar, da família e de casa. Seu mundo era o emprego e a contínua vivência em família. Nem se diga que era um misantropo, um esquisito, pois sabia cultivar amizades e atrair bons amigos, numa medida justa que nem chegava a trivial intimidade nem tocava às raias das distâncias sociais. Era um sóbrio em tudo, tanto na vida temporal como nas manifestações da vida afetiva, mesmo entre os seus. Dominava bem os sentimentos internos e externos.
 Em família, junto a seus nove filhos, era o mesmo equilíbrio emocional, seja no exercício positivo ou negativo da paternidade. Jamis se fez de delegado nas questões domésticas.
Era um juiz sereno, cauteloso, prudente, cujas sentenças eram ditadas homeopática e oportunamente, sem crime de omissão prejudicial. Embevecia-se com os filhos em favor dos quais imolou todas as energia de homem pai. Adorava a esposa que considerou sempre em função de Primeiro Ministro do Reino Unido da Família. Numa palavra, era um homem justo, quanto é possível sê-lo no meio das tormentes humanas. Foi bom crstão. Foi bom pai. Foi bom esposo. Foi bom amigo. Foi bom empregado. E tudo aprendeu , sendo bom filho do venerável professor José Bezerra de Brito de quem recebeu os talentos de uma boa educaçào doméstica e não os multiplicou, em cinco apenas, como o servo bom e fiel do Evangelho, mas os dimensionou, na escala da caridade divina, tendo por sistema dimensional o célebre setenta vezes sete.
Nao tive palavras para confortar seus familiares. Julguei pouco o convencional “aceite meus pêsames”. Preferi dizer a Tia Dona, sua esposa, para ela transmitir aos seus, a seguinte mensagem, muito curta, porem a que me pareceu mais veraz e oportuna: “A terra perdeu e o céu ganhou”. E com essa expressão, quero traduzir a todos os familiares do nosso inesquecível VBIS (era o apelido familiar de Vicente Alves Bezerra) o sinal do nosso profundo consternamento pelo golpe deferido pela Providência, em circunstâncias tão emocionantes, qual seja a morte, quase na soleira da casa, ao regressar de uma viagem ao Sul do País, visitando, sem o saber, pela última vez, filhos, genros e netos.
TRAÇOS BIOGRÁFICOS
Vicente Alves Bezerra , nasceu em Crato-CE, aos 2 de Maio de 1907. Filho do Profesor José Bezerra de Brito e sua primeira esposa. Casado com Dona Maria de Carvalho Brito em 01 de Maio de 1037, em Crato. Cedo trabalhou na “A Pernambucana”e, durante 36 anos, no Banco Caixeiral do Crato do qual acabava de afastar-se por motivo de recente aposentadoria.
Sua prole foi de dez filhos, sendo 9 vivos a saber: Carlos Alberto, casado, funcionário da Agencia Local do Banco do Brasil; Pia Mary, casada residente em São Paulo; José Hermano, oficial do Exército, residente em Recife; Geraldo e Fernando, gêmeos, estudantes; Maria da Glória, professora local; Francisco, Emanuel e Dulce, estudantes.
Serviu longos anos na Cooperativa Agrícola do Cariri, formando o garboso triunvirato: Juvêncio Barreto, Pedro Gonçalves de Norões e Vicente Alves Bezerra.
Pertencia a várias associações religiosas, inclusive Cogregação Mariana, Apostolado da Oração, Irmandade do Santíssimo Sacramento e Conferências Vicentinas. Era do Quadro de sócios dirigentes da Sociedade Beneficiente do Hospital S. Francisco de Assis, do Crato, funcionando como Segundo Secretário, há vários anos e re-eleito para o corrente exercício social.
Morreu como viveu. Cercado do conforto da família, da Igreja e dos Amigos. Seu sepultamento ocorreu, no Sábado, às 17 horas, havendo missa de corpo presente em sua própria residência, mandada celebrar pela Sociedade Beneficiente do Hospital S. Franciscco de Assis e oficiada pelo respectivo Provedor, Mons. Pedro Rocha de Oliveira.
Elementos das associações de classe de associações religiosas, alem de crescido números de parentes e amigos, acompanharam o féretro até ao cemitério, como derradeira homenagem ao pranteado extinto.
Deus lhe dê o descanso em paz e o reino do céu.............
Homenagem de José Hermano ao Centenário de nascimento de sua Mãe Dona Brito
Com a permissão do Padre José Honor, presidente dessa celebração e de Bebeto, anfitrião e primogênito, quero prestar homenagem a Maria de Carvalho Brito Bezerra, nossa abnegada e incansável Mãe.
A ocasião e o local não poderiam ser mais apropriados para a honrarmos como Mãe e de a exaltarmos como a grande pessoa ( cidadã) que foi.
A ocasião porque em uma missa em sua homenagem; missa que Ela tanto valorizou quando viva.
O local porque aqui, na casa de Bebeto, e no local onde Ela e o nosso inesquecível Pai resolveram construir seu primeiro imóvel, uma pequena casinha de taipa no então longínquo mas sempre aprazível bairro do Pimenta.
Presentearam-nos com a vida, o exemplo e a total dedicação a seus 10 filhos (9 ainda vivos). Lutaram obstinadamente para que não nos faltassem o pão, o estudo, e os princípios morais, éticos, e religiosos. Somos todos testemunhas da abnegada e incansável Mãe que sempre foi.
Todos lembramos de sua peregrinação pelos colégios do Crato em busca de vagas, de descontos, ou mesmo da isenção nas mensalidades escolares, sem os quais, dificilmente teríamos conseguido estudar.
Não ia a cinemas, teatros e nem a outros tipos diversão porquê, na sua maneira de entender, o dinheiro e o tempo gastos nessas atividades poderiam fazer falta em nossa formação. Não viajava, a não ser que a viagem fosse para nos ajudar, como por exemplo nos nascimentos de netos.
Sabia decidir e executar, ou exigir o cumprimento de suas decisões. Foi de fundamental importância em decisões que, no futuro, se mostraram acertadas para a família. Entre outras, gostaríamos de citar:
1) A compra do primeiro imóvel.
Em virtude de dificuldade para continuarmos morando em imóvel alugado na Rua da Vala, decidiram comprar este terreno e construir uma pequena casa de taipa. O terreno era afastado e desabitado; nossa casa foi a segunda da região. Por incrível que hoje possa parecer, por dentro do nosso terreno passava um pequeno mas perene riacho de águas cristalinas. Onde anda o nosso riacho que o “progresso” não soube conservar?
2) A decisão de servir ao próximo .
O Crato daquela época, centro cultural do Cariri, apresentava as melhores oportunidades de estudo. Juntamente com nosso Pai, pois decisões como essas não poderiam ser tomadas isoladamente, decidiram apoiar a todos que precisaram morar conosco, a maioria por motivos de estudo. Nunca os ouvimos dizer “atualmente não podemos ajudar porque a nossa situação financeira está apertada ” - ela sempre estava. Sempre os ouvimos dizer:”AQUI EM CASA SEMPRE CABE MAIS UM”.
3) A mudança para Recife.
Após a morte de nosso pai, mamãe concluiu que era melhor se transferir com Baía e seis filhos para Recife. Tínhamos combinado a transferência e eu estava pesquisando preço de casa ou apartamento quando numa quinta ou sexta feira recebi um curto telegrama: “SIGO TERÇA FEIRA COM OS MENINOS”. Alugamos o que nos pareceu a melhor alternativa no momento, e pedimos emprestadas camas de campanha. Na terça feira chegou Ela com os meninos e um pequeno fogareiro, nosso primeiro fogão. Extendemos cordas entre os armadores, nosso primeiro guarda roupas e, sem nenhum trauma, vivemos um excelente período do qual sempre nos orgulhamos.
NOVOS FILHOS / IRMÃOS
Graças a maneira de pensar de nossos pais ( AQUI EM CASA SEMPRE CABE MAIS UM), Eles procuraram ajudar e trouxeram para morar conosco , em diferente épocas e por diferentes períodos, além dos nove filhos biológicos, 22 outras pessoas que passaram a nos considerar, e a serem por nós considerados, irmãos. Uma grande família de 31 irmãos. Todos que conosco moraram podem comprovar que a partir da hora que conosco estavam, eram considerados irmãos para todos os efeitos: direitos e obrigações.
É essa a razão pela qual acredito que a grandeza de Dona Brito ultrapassou o já nobre papel de uma grande Mãe; podemos considerá-la uma humilde porem autêntica heroína.
Orgulha-nos constatar que, de alguma maneira, nossos pais ajudaram na formação de nossos outros 22 irmãos. Sei que não poderia creditar a nossos pais muitos sucessos em suas vidas profissionais porque seria esquecer seus valores pessoais. Mas tenho certeza que uma grande parte desses irmãos gostariam de com Eles compartilhar seus sucessos. Acredito que, entre outros, poderia incluir:
MARIA DAS DORES ALVINO (a nossa querida BAÍA) -morando conosco a 70 anos exercendo em algumas ocasiões o papel de uma boa irmã, e em outras ocasiões o papel de uma segunda mãe. Mamãe foi tão previdente que nos deixou Baia.
JOSÉ RONALD BRITO – que conosco morou enquanto meus padrinhos estavam no sitio Cabeça da Vaca, entre Juazeiro e Caririaçu. Nosso irmão e lider do nosso tempo de criança, amigo leal de todas as ocasiões, daquele tempo até hoje. Coronel, ex Chefe da Casa Militar do governo do estado do Ceará. Escritor.
JOÃO ALVES NETO – primo amigo, dono de inteligência e memórias privilegiadas. Transferindo-se para São Paulo recebeu, amparou e orientou uma verdadeira legião de cearenses que o procuravam.
BENILDE – uma nova Madre Teresa de Calcutá hoje morando em São Paulo e dedicada ao atendimento de idosos.
BENILCE – Professora e Coordenadora de Cursos em Recife, nossa querida cunhada, hoje esposa de nosso irmão Tico ( Edson).
ALCIDES MODESTO COELHO – Padre, Ex Dep. Estadual e Federal pela Bahia, Ex Superintendente da CODEVASF em Juazeiro da Bahia.
JOSE ROCÉLIO SIEBRA DE BRITO Ex- Bancário do Banco do Brasil residente em Caruaru.
MACÁRIO JOSÉ DE BRITO BEZERRA – Médico Anestesista residente em Crato. Morou com Dona Brito durante o período de cursinho e da Faculdade Medicina em Recife.
MARIA DEILDA CARVALHO PEREIRA- Pedagoga e Advogada residente em Brasília.
Lamentamos já não estarem entre nós :Adauto, Daudile, Manoel Bezerra , Maria Brito e Expedito ( de Noeme) - já falecidos.
Finalmente, imagino que se Dona Brito pudesse nos fazer um pedido, Ela pediria para conservar a união da família, uma família de 31 membros que Ela tanto amou. Provavelmente, em outras palavras, Ela diria:
Esqueçam mágoas e divergências, exercitem o perdão.
Entendam e, se possível, valorizem as diferenças.
Mantenham a família unida.
Crato, 17 de julho de 2009
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