06 março 2013

Vida de topógrafos: aventuras em terras catarinenses

    
5. A Novo Rumo Topografia na Enercan

Constatamos ao chegar, no final da tarde de uma sexta-feira, que na UHE Enercan não seria possível (devido a muitas pedras no leito do Rio Canoas) se utilizar o barco e assim, todo o trabalho em água foi realizado em um caiaque duplo para expedição. Por outro lado, as três turbinas estavam desligadas e a expectativa na sala de comando da empresa seria de ficarem sem gerar energia durante todo o final de semana. Tratamos de iniciar os trabalhos e ao entrar na água logo avistei uma grande carpa morta e ficamos por lá trabalhando até o anoitecer. Constatei, na escuridão da noite, a luz vermelha do Rubi LASER (Light Amplification by Stimulated Energy Radiation), que é formado por uma matriz de alumina (Al2O3) dopada com átomos de crômio e naquele momento retornei a minha postura científica, pois relembrei que o LASER foi previsto por A. Einstein (1906) e pela Mecânica Quântica (1926-1928), sendo desenvolvido e utilizado inicialmente pela NASA para medir a distância Terra-Lua e assim contribuiu para o sucesso do projeto Apolo. A radiação LASER, que é pulsada/monocromática, se constitui em uma evidência direta da estrutura discreta, ou seja, não contínua do átomo..., mas naquele momento o que importava era que o rubi laser estava sendo utilizado pelos competentes topógrafos da Novo Rumo Topografia.
Agora éramos três e o trabalho foi cansativo e perigoso, mas eu fui favorecido pelo longo estágio com os Mocós do Açude de Cedro, nos Monólitos de Quixadá/CE, isto é, aprendi a subir e a descer grandes pedras em segurança! No dia seguinte, bem cedo, estávamos de volta à Enercan e logo os meninos encontraram 27 mandis pintados, 37 vogas e muitos lambaris. Eu encontrei mais uma grande carpa morta e o Renê retornou ao hotel para colocar os peixes vivos no freezer. Trabalhamos naquele sábado até o escurecer e limpamos os peixes até a meia noite.    
Seguiu-se uma rotina (do nascer ao por do sol) por mais quatro dias de topografia convencional, Topo batimetria e Eco batimetria em caiaque, em que se passava todo o dia molhado (pelas águas do Canoas e pela chuva), mas terminamos aquela missão com total sucesso e na sexta-feira (21/12/2012) retornamos à Baesa para completar as medidas na parte de baixo da temida cachoeira! A expectativa era muito grande e a questão levantada foi “como proceder para se completar os dados em Barra Grande”?
2.       De volta à Barra Grande: a missão foi cumprida
A equipe da Novo Rumo Topografia (agora eu, Renê e Mateus) vislumbrou duas possibilidades para finalizar o trabalho na parte de baixo da cachoeira do Rio Pelotas, na UHE da Baesa: eu planejava descer a cachoeira com o barco vazio (os equipamentos seriam transportados pelos meninos, via pedras, até cerca de 50 metros após a cachoeira), desceria com o motor desligado, mas utilizando o leme para defender a embarcarão do confronto direto com as pedras e após se realizar as medidas, desceríamos o rio até Machadinho. Por outro lado, os rapazes planejavam o contrário, ou seja, subir o Rio Pelotas (via Machadinho), de barco e com todos os equipamentos à bordo, e depois se retornaria. Mas ambas as hipóteses teriam que ser avaliadas a partir de informações junto à direção dessa UHE.
Chegando à Barra Grande a Novo Rumo Topografia teve a autorização para trabalhar em água por apenas duas horas, com todas as turbinas e o vertedouro desligado, e assim procedemos.  Finalmente foi possível se medir de caiaque os últimos 400 metros que restavam para se cumprir a tarefa! Realizamos (eu e o Renê) Topo batimetria, em baixa correnteza e no final do tempo estabelecido o Mateus (na Estação total) nos avisou pelo rádio para abandonarmos a água. Conseguimos realizar as medidas (com 50 metros de sobra), mas tornou-se complicado retornar com o caiaque, pois a água subia rapidamente, ou seja, como as 3 turbinas foram ligadas o nível d’água subiu maus de 4m! O Mateus desmontou e guardou a Estação total e foi nos ajudar. Puxamos o caiaque, feito boi manso (o Renê na água, eu e o Mateus pelas pedras), com uma corda, contra a correnteza por cerca de 1300 metros até se chegar ao carro, mas, para a minha surpresa, os rapazes se interessaram por dois galhos secos (de Tarumã) e os levamos para a Montana!
Com a missão cumprida, retornamos à Capinzal, onde se encontram os dois tocos no jardim da casa/escritório da ME, pois representam troféus conquistados na Baesa e na Enercan.  Acredito mesmo que ambos os tocos representam a garra, a capacitação técnica dos jovens Agrimensores da Novo Rumo Topografia e também simbolizam a capacidade de resolverem problemas que surgem no percurso do trabalho e de cumprirem prazos, mesmo tendo que enfrentar grandes pedras e fortes corredeiras, pois aventuras são comuns na vida de topógrafos. 

Continuação...


3. Um refrescante banho, involuntário, de cachoeira em Barra Grande.
Retornamos à Baesa, com a equipe reforçada pelo Massom, e para se ganhar tempo no trabalho decidimos fazer Topo batimetria (com muita chuva e fortes correntezas), apoiada por uma corda amarrada em pedras nas duas margens de uma pequena cachoeira. Sustentamos os prismas na corda e cada membro da nossa equipe realizava a sua parte naquela difícil tarefa: Mateus se encontrava na Estação total (em cima de um morro e distante de nós cerca de 400 metros), Sr. Joãozinho e Massom ajudavam com a corda, sendo eu e o Renê na água! Enfrentamos a correnteza, apontando ambos os prismas na direção da Estação total, mas tivemos dificuldades para realizar as primeiras medidas e quando atingimos o centro da corredeira, a corda se soltou de uma das pedras e eu (de salva vidas) desci rolando na correnteza e foi um refrescante banho nas águas frias da UHE Barra Grande. Nesse momento eu me lembrei da época em que eu, ainda criança, pulava de uma ponte (em Lima Campos/CE) para o leito do rio cheio pela sangria do açude. O meu pai me alertou que “não se devia lutar contra a força da água, pois bastava ter paciência para chegar ao barranco do rio”. Dito e feito: após cerca de 30 metros de um refrescante banho, eu saí pelas pedras do Rio Pelotas, logo abaixo da referida cachoeira. Retornei ao meu posto e em seguida o Renê (também de colete salva vidas) não pode suportar a força da água, desceu a cachoeira por duas vezes e a missão foi interrompida. Voltamos a desenvolver as atividades uns 20m abaixo da forte correnteza, mesmo assim a dificuldade era imensa, pois nos era exigido muita concentração e força para vencer as águas e obter o resultado esperado, mas foram desenvolvidas mais quatro seções por essa metodologia.


4. Eco batimetria em Barra Grande
Finalmente chegou a hora da minha estreia como piloto do barco e com apenas uma turbina ligada (cerca de 100.000 metros cúbicos por segundo) e o vertedouro desligado fomos autorizados a realizar as medidas Eco batimétricas na Baesa. Após a aferição do equipamento, podemos ver um engenheiro filmando, lá do alto, a nossa aventura e o Mateus perguntou: “pai, existe a possibilidade de o barco virar?“ Eu respondi que achava que não, mas solicitei muita atenção com as varas (duas varas verdes, com cerca de 2,0 metros cada) para serem utilizadas caso o barco fosse lançado contra o paredão de basalto e assim eles procederam! Demos uma grande volta, ganhamos velocidade, aprumei a proa para o centro das bolhas (cerca de dois metros de diâmetro) que saiam da turbina em atividade e pude notar preocupação da tripulação, mas eu estava tranquilo, pois havia observado os biguás pescando em uma região próxima as bolhas, mas de fato a embarcação foi um pouco levantada e jogada para o lado! Completamos aquelas primeiras medidas, ganhamos mais velocidade e aprumamos a proa novamente em direção às grandes bolhas, mas dessa vez um pouco à esquerda do centro das bolhas e o barco foi desviado para o paredão. As varas funcionaram conforme o planejado e o resultado foi um grande sucesso. Terminamos o trabalho realizando círculos concêntricos, que a meu ver se constituíram em um show de pilotagem e de Eco batimetria nas águas da Baesa, mas ainda faltava a coleta de dados na região de baixo da temida cachoeira!
Considerando-se, naquele momento, a impossibilidade de se trabalhar com as turbinas e o vertedouro desligados e a necessidade de completar as medidas batimétricas na UHE de Barra Grande, os meninos insistiam em descer a cachoeira (com todos os equipamentos dentro do barco + os tripulantes Mateus, Renê e Massom, ou seja, o barco se encontrava muito pesado) para coletar dados e eu discordei. Como o Mateus e o Renê insistiram, eu fiz uma grande volta, aprumei a proa do barco direto para as corredeiras, botei pressão no motor, mas quando me aproximei da descida, abortei o plano! Eu não queria colocar em risco aquele patrimônio da Novo Rumo Topografia (todos nós todos estávamos de coletes salva vidas), mas insistiam nesse plano, pois os dados teriam que ser coletados e eles me desafiavam! Eu fiz uma longa curva para a direita e eles gelaram, pois sentiram que faltava força no motor, mas de fato eu
ainda tinha certa reserva de potência no motor (e não adiantaria acelerar tudo!). Eu decididamente queria assustá-los e consegui, pois os rapazes sentiram a força da correnteza que naquele momento era incrivelmente forte, e assustadora! Ainda realizamos outras duas voltas, nos aproximando, mas evitando descer a cachoeira e assim todos os dados foram coletados na parte anterior daquela cachoeira. Ganhamos confiança, mas decidimos levantar acampamento.  O Sr. Joãozinho e Massom retornaram à Capinzal, por compromissos familiares, enquanto que eu, Mateus e Renê viajamos para a UHE da Enercan rumo a mais uma aventura.

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