09 dezembro 2011

A infância do Napoleão no Sitio Saco dos tempos do Tio Quincas e do Pai Né Rosendo


Em carta pessoal para Marcos, o Dr. Napoleão Tavares Neves relatou os seguintes fatos relacionados com a sua infância no Sítio Saco dos tempos do Tio Quincas e do Pai Né Rosendo.


No tempo do Saco de Joaquin Neves, o Saco era autosuficiente em tudo, fabricando aguardente e até álcool, em um rústico alambique artesanal. No engenho de Pai Né fabricava-se até açúcar, a partir do melaço da rapadura. Houve época no Saco, antes do advento da energia de Paulo Afonso, que a casa do tio Alboino era iluminada com energia elétrica da Nascente Grande do Saco, caindo em uma roda hidráulica dentada, de madeira, acionando um gerador. Nesta nascente, uma das mais caudalosas do Cariri, quando menino, costumava esperar o gado que descia da Chapada do Araripe para beber. Vezes, ficava o dia inteiro lá com os vaqueiros, esperando o gado que descia. O gado descia liderado por uma vaca de chocalho que tinha liderança sobre o seu grupo e o vaqueiro, José Felix, ao ouvir ao longe o tom do chocalho dizia: “Lá vem a vaca Princesa com a sua maromba” e era mesmo!
Entre uma manada e outra, eu ficava tomando banho na fonte e brincando de fazer cavalo de vargem de mucunã, ali muito encontradiça.
E olhe que a mais saborosa carne é a carne dos alforges dos vaqueiros, porque o chôto dos cavalos o dia inteiro, faz impregnar o sal na carne, tornando de sabor inigualável! É típica de carne de alforge!  E às vezes comia-se carne com piqui assado na brasa. Uma delícia! A comida típica do vaqueiro, tendo como prato a tampa do alforge, é sempre carne assada, com farinha e rapadura raspada e queijo. Um manjá, sobretudo para menino! Todo vaqueiro conduz a sua comida nos alforges, a sua rede na maca e a ração de milho para o cavalo em um surrão de couro.
Os vaqueiros do Saco recebiam por semana, cada um, 2 quilos de carne boa, por eles escolhida. Era uma casta privilegiada, respeitada, acatada e que comia na mesa com o patrão. Cada um tinha 4 cavalos bons, gordos e um burro para o traqueijo do gado. Cada vaqueiro chegava a possuir até 50 reses criadas junto com as do patrão e sorteavam de 4/um, isto é, de cada 4 bezerros nascidos, um era do vaqueiro.
Outra casta muito acatada e bem acolhida no Saco do meu tempo eram os comboeiros da rapadura. Não havia caminhão e toda a produção de rapadura até 1940 ara tirada em costas de burros, sobretudo comboeiros dos sertões da Paraíba e até do Rio Grande do Norte. Lembro-me de comboeiros do condado de Patos, Souza, Antenor Navarro e, sobretudo do Açude de Curemas que se dizia ser o maior do Brasil. O comboeiro João Daniel ficava até alta noite empaiolando rapadura no rancho de engenho e contando as lendas do Açude de Curemas. Era simpático, respeitável e comia na mesa com Pai Né. Tinha 25 burros famosos dividido por 5 comboeiros, todos filhos ou genros. Na hora da saída da tropa Pai Né dava 25 rapaduras para comerem na longa travessia. A burra da guia era amestrada e a primeira a ser carregada, após o que ele dava um açoite e ela ficava rodopiando, em círculo. A cada burro que era carregado, novo açoite com a linha de comboeiro e o animal juntava-se aos outros, rodopiando. Certa vez, perguntei-lhe: Por que eles têm que rodopiar? Resposta: “É o que chamamos de aquecimento. Se não fizer isto os burros se deitam com as cargas.” Na hora da saída, Pai Né fazia a conta e ele pagava em espécie, retirando o dinheiro de um patuá de sola enfeitado. Eita tempo bom danado, Marcos!
Napoleão Tavares Neves, 2.11.2.11
(assinado em baixo)
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