15 junho 2010

A perda de um Pai

Austrália, 31 de setembro de 2008

Era domingo à tarde, voltava pra casa caminhando, beirando o mar. Quando minha mãe me ligou, disse que meu pai havia partido. O mundo ao meu redor parou.
Observei novamente o mar, sentindo a imensidão da perda.
Estático, recordei alguns momentos:
Quando ficava saboreando seus petiscos enquanto ele bebia na varanda do Camará, assistindo jogos de futebol, das pescarias que ele me levava, de alguns acidentes que tive e quando ele me dizia para ser mais cuidadoso. Ele sempre me dizia que eu estava magro demais e recebia um puxão estralado no excesso de pele da barriga.
Quando era criança fui ao supermercado com ele, voltei pro carro saboreando um delicioso chocolate. Nessa época não sabia qual era o significado da palavra furto, mas meu pai me obrigou a voltar ao supermercado pedir desculpas e devolver aquele delicioso chocolate, mesmo chorando muito, eu fui. Aprendi desde então a nunca pegar o que não é meu.
Na infância lembro de uma fase em que todas às sextas-feiras meu pai me trazia um carrinho ou qualquer que fosse o presentinho. Hoje, com a chegada do meu primogênito, entendo porque ele me trazia sempre uma lembracinha naquelas benditas sextas.
Relembro todas as festas de aniversário, quando meu pai passava horas a cozinhar algum prato especial ou sua famosa feijoada, atencioso e preocupado com o desenrolar do evento.
Recordo as incontáveis vezes que recebi amigos sem aviso prévio e sempre foram bem recebidos em minha casa com um prato extra qualquer que fosse a hora. Por toda minha vida, meus irmãos e minhas sobrinhas fomos acordados todos os dias, aproximadamente, 5h30m da matina para a saudável vitamina de banana, chamada pelo meu pai de "bananada". Acredito que isto seja responsável pela boa saúde da família.
 Bananada que nutria corpo e alma, e ainda os visitantes que dormiam aleatoriamente em nossa casa e eram acordados para desfrutá-la. Tenho orgulho de ter recebido tal prova de amor durante toda minha vida e tenho certeza que farei o mesmo com meu filho.
Na última festa de reveillon que passei no Brasil, toda minha família estava reunida no Camará da Serra. Na hora da virada meus pais estavam se abraçando, instintivamente todos os filhos se uniram formando um único círculo (inesquecível). Foi o ultimo reveillon com todos nós juntos.
Lembro das suas palavras, quando liguei pra casa dia 18 de fevereiro e falei pra ele sobre minha paternidade inesperada. Simplesmente, ele disse: "Foi mesmo, rapaz! Isso é muito bom. Um filho é sempre uma benção".
Quando se mora longe de suas origens, o assunto mais comentado entre os "viajantes" são suas raízes. A família é assunto principal. No meu caso, não canso de citar o valor da minha, o seu número de integrantes e a sinergia entre eles.
Cheguei a duas conclusões que gostaria de dividir com vocês:
Meu pai foi uma pessoa do bem, que nos ensinou a ser correto acima de tudo e ter dignidade na essência. Vou além, acredito que meus pais poderiam constar nas enciclopédias atuais, quando se procura informações sobre exemplo de família.
Meus pais são super-heróis, um bancário e professora universitária que criaram 4 filhos com os armadilhas financeiras do país e com os obstáculos do proletário brasileiro. Não um império financeiro, mas é um império familiar.
O ciclo natural da vida nos parece injusto. É impossível mensurar a perda de uma pessoa, menos ainda a do meu pai. Percebo que adquiri muitas características semelhantes as dele. Divergências se transformam em afinidades, hábitos e costumes se entrelaçam ao nosso DNA. Agora entendo o porquê de Elis Regina cantar aquela canção "Como nossos pais".
Reconheço a força e luta de meus pais durante toda nossa trajetória juntos.
Enxergo o esforço que eles tiveram em educar 4 filhos sempre enfatizando o poder e os valores da família unida.
Obrigado, meu pai Edmilson, pela semente plantada. Guardarei os ensinamentos e passarei adiante para meus filhos e netos. Sua missão foi cumprida com louvor e amor.
Saudade.
Sergio Lustosa da Costa Brito (filho)
... e já se passaram quase dois anos

1 comentários:

Anônimo disse...

Saudades também de Edmilson, apesar de poucos encontros, era um homem simpático, educado e do bem.Um orgulho para todos nós. Abraço carinhoso
Maria Teresa, João Victor e Ana Sophia.