22 maio 2010

EU E MEU CAMPINA
Assaré, terra querida
Nestes versos que componho
Te digo que em minha vida
Tu és o meu grande sonho
Desde o vale até o monte
És a milagrosa fonte
De minhas aspirações
Meu torrão de sol ardente
Banhado pela corrente
Do rio dos Bastiões
                                         Foi em mil e novecentos
 E nove que eu vim ao mundo
Meus pais naqueles momentos
Tiveram prazer profundo,
Foi na Serra de Santana
Em uma pobre choupana
Humilde e modesto lar
Foi ali onde eu nasci
E a cinco de Março vi
Os raios da luz solar.
Eu nasci ouvindo os cantos
Das aves da minha terra
E vendo os lindos encantos
Que a mata bonita encerra,
Foi ali que eu fui crescendo,
Fui lendo e fui aprendendo
No livro da natureza
Onde Deus é mais visível,
O Coração mais sensível
E a vida tem mais pureza.
Sem poder fazer escolhas
De livro artificial,
Estudei nas lindas folhas
Do meu livro natural
E assim longe da cidade
Lendo nesta faculdade
Que tem todos os sinais,
Com esses estudos meus
Aprendi amar a Deus
Na vida dos animais.
 Quando canta o sabiá
Sem nunca ter tido estudo
Eu vejo que Deus está
Por dentro daquilo tudo,
Aquele pássaro amado
No seu gorgeio sagrado
Nunca uma nota falhou,
Na sua cançào amena
Só diz o que Deus ordena
Só canta o que Deus mandou.
 Crescí entre os campos belos
De minha adorada Serra,
Compondo versos singelos
Brotados da própria terra,
Inspirado nos primores
Dos campos com suas flores
De variados formatos
Que pra mim sào obras primas
Sem nunca invejar as rimas
Dos poetas literatos.
Vivendo naquele meio
Sentindo um prazer infindo
De doces venturas cheio
Parecia estar ouvindo
Naquele quadro silvestre
A voz do Divino Mestre
Falando dentro de mim:
- Não lamente a pobreza
Pois tu tens grande riqueza,
Felicidade é assim.
 E eu passava sorridente
A tarde, a noite e a manhã,
Sem nunca me entrar na mente
A falsa riqueza vã,
Mas por capricho da sorte
Ví que a estrela do meu norte
Deixou de me proteger,
Saí do meu paraíso
Porque na vida é preciso
Gozar e também sofrer
 Com setenta anos de idade
O destino me fez guerra
Fui residir na cidade
Deixando a querida Serra,
Minha Serra pequenina,
Mas um galo de campina
De trazer não me esquecí
Porque neste passarinho
Estou vendo um pedacinho
Lá do sítio onde nascí.


 Me envolve nesta cidade
Certa sombra de tristeza
Sentindo a roxa saudade
Das vozes da Natureza
Longe daquele ambiente
Tão puro e tão inocente
Que me prende e que me encanta,
Tenho apenas esta lira,
Um coração que suspira
E um passarinho que canta.
 Canta campina, o teu canto
Faz diminuir o meu tédio
Para aplacar o meu pranto
A tua vóz é remedio,
Neste nosso esconderijo
És o único regozijo
Para os tristes dias meus
Tu és um anjo divino
E este teu canto é um hino
Louvando o poder de Deus.
 Por dentro da mesma linha
Nossa vida continua
A tua sorte é a minha
E a minha sorte é a tua,
Se vivendo na cidade
Tu cantas uma saudade
Saudade o teu dono tem,
Meu querido companheiro
Se tu és prisioneiro
Eu vivo preso também.
 Se tu tens a tua história
Que o mau destino te deu,
Perdí também uma glória,
O mesmo padeço eu,
Meu querido passarinho
Vamos no mesmo caminho
Seguimos a mesma meta
Padecem a mesma sina
O poeta do campina
E o campina do poeta.
 Era boa a tua vida
Porque vivias liberto
E para tua dormida
Tu tinhas o ponto certo,
Mas não lamentes o fado
Vivendo hoje preso ao lado
Deste teu pobre senhor,
Quem sabe se no porvir
Tu não irias cair
Nas armas do caçador?
 Eu te conduzi do mato
Com desvelo e com carinho
Porque neste mundo ingrato
Ninguem quer viver sozinho,
Se a mesma sorte tivemos
Juntinho nós viveremos
Por ordem do Criador,
Neste sombrio recanto
Tu, consolando meu pranto
E eu cantando a tua dor.


Patativa do assaré
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