23 outubro 2011

O Coiote
Eu caminhava pela estrada e sentia um grande cansaço nas pernas, não aguentava mais, queria pedir ajuda, mas não havia ninguém. Sentia meu corpo febril e uma fraqueza geral. Já não tinha ânimo para continuar a caminhada e via os últimos raios de sol se escondendo atrás das montanhas. Eu não tinha ideia de quanto tempo ainda faltava para a pousada. Eu precisava chegar lá antes do anoitecer. Eu havia demorado demais no caminho.
O cansaço foi minando minha energia e a noite chegara. Já não conseguia enxergar a estrada, até que tropecei e caí. Senti o corpo inteiro doendo e fiquei deitado no chão, sem vontade de me levantar. Comecei a chorar, senti-me abandonado. Me arrependi de estar fazendo aquela caminhada espiritual tão longe de casa, no Caminho da Fé, e agora eu estava ali em plena Serra da Mantiqueira, sul de Minas, caído no chão, com fome, sem ter a quem recorrer. Senti saudades de casa, da minha família e da minha cama confortável. Já não tinha mais noção de quanto tempo, eu estava ali, esmorecido, perdido em pensamentos, não tinha mais forças nem pra chorar, embora sentisse as lágrimas escorrendo.
Subitamente senti algo se aproximando de mim. Me assustei e o sangue gelou nas veias, era um animal, parecia um coiote, mas não podia ser, eles não existem no Brasil. Ele cheirou-me o rosto. Senti o seu focinho e o seu hálito na minha cara. Fechei os olhos e imóvel, me entreguei, pois já não havia nada que eu pudesse fazer.
O coiote começou a lamber as minhas lágrimas. Eu entrei num estado de torpor e comecei a sentir meu corpo leve e flutuando. Vi o coiote correndo numa imensa planície e senti a vegetação tocando o seu corpo. Eu era o coiote e corria mais veloz que o vento. Fui tomado por um sentimento de paz profunda, que parecia não ter fim…
Senti meu corpo dolorido ao me movimentar. Abri os olhos e os raios do sol deixaram-me levemente ofuscado. O orvalho da manhã me trouxe à realidade. Eu dormira na estrada e agora me sentia bem, meu corpo estava aquecido. Procurei o meu cajado e me apoiei nele para me levantar. Nesse momento avistei a pousada de apoio aos peregrinos, a fumaça saindo pela chaminé, me fez pensar que ali estava sendo preparado um delicioso café da manhã. Apressei o passo, lembrando que ainda teria dois ou três dias de caminhada até o santuário de Aparecida. Senti-me fortalecido e amparado.
Lembrei do coiote… Teria sido um sonho? Ou fui tocado pelo sagrado?

O Coiote
Eu caminhava pela estrada e sentia um grande cansaço nas pernas, não aguentava mais, queria pedir ajuda, mas não havia ninguém. Sentia meu corpo febril e uma fraqueza geral. Já não tinha ânimo para continuar a caminhada e via os últimos raios de sol se escondendo atrás das montanhas. Eu não tinha ideia de quanto tempo ainda faltava para a pousada. Eu precisava chegar lá antes do anoitecer. Eu havia demorado demais no caminho.
O cansaço foi minando minha energia e a noite chegara. Já não conseguia enxergar a estrada, até que tropecei e caí. Senti o corpo inteiro doendo e fiquei deitado no chão, sem vontade de me levantar. Comecei a chorar, senti-me abandonado. Me arrependi de estar fazendo aquela caminhada espiritual tão longe de casa, no Caminho da Fé, e agora eu estava ali em plena Serra da Mantiqueira, sul de Minas, caído no chão, com fome, sem ter a quem recorrer. Senti saudades de casa, da minha família e da minha cama confortável. Já não tinha mais noção de quanto tempo, eu estava ali, esmorecido, perdido em pensamentos, não tinha mais forças nem pra chorar, embora sentisse as lágrimas escorrendo.
Subitamente senti algo se aproximando de mim. Me assustei e o sangue gelou nas veias, era um animal, parecia um coiote, mas não podia ser, eles não existem no Brasil. Ele cheirou-me o rosto. Senti o seu focinho e o seu hálito na minha cara. Fechei os olhos e imóvel, me entreguei, pois já não havia nada que eu pudesse fazer.
O coiote começou a lamber as minhas lágrimas. Eu entrei num estado de torpor e comecei a sentir meu corpo leve e flutuando. Vi o coiote correndo numa imensa planície e senti a vegetação tocando o seu corpo. Eu era o coiote e corria mais veloz que o vento. Fui tomado por um sentimento de paz profunda, que parecia não ter fim…
Senti meu corpo dolorido ao me movimentar. Abri os olhos e os raios do sol deixaram-me levemente ofuscado. O orvalho da manhã me trouxe à realidade. Eu dormira na estrada e agora me sentia bem, meu corpo estava aquecido. Procurei o meu cajado e me apoiei nele para me levantar. Nesse momento avistei a pousada de apoio aos peregrinos, a fumaça saindo pela chaminé, me fez pensar que ali estava sendo preparado um delicioso café da manhã. Apressei o passo, lembrando que ainda teria dois ou três dias de caminhada até o santuário de Aparecida. Senti-me fortalecido e amparado.
Lembrei do coiote… Teria sido um sonho? Ou fui tocado pelo sagrado?

21 outubro 2011

E João Massa não voltou!
E João Massa não voltou naquela tarde invernosa em que ele saiu encourado para as bandas da fazenda Caboclo, também do Coronel Né Rosendo, vizinha da fazenda João Vieira onde ele era vaqueiro.
A tarde caiu e João Massa não chegou para a luta das vacas paridas no curral! Todos estranharam! O que teria acontecido? João Massa era bom vaqueiro: cumpridor dos seus deveres, honesto, dedicado, trabalhador.
Eis que, no lusco-fusco daquela tarde invernosa, ouviu-se o resfolegar de um cavalo que adentrava o páteo da velha fazenda.  Era o cavalo de João Massa com a brida pendurada. A fazenda toda se alvoroçou! Todos foram convocados para uma busca nos altos do caboclo, de mata virgem. Fachos de marmeleiro foram improvisados a escuridão da noite foi aclarada pelos fachos acesos dentro da mata. Lá para as tantas da noite, alguém ouviu o latido de um cachorro, certamente disperto pelo vozeiro e pela luz dos muitos fachos! Lá longe em uma quebrada do Caboclo, acima do velho açude, estava João Massa morto, sem ferimentos, mas morto e com um único conforto: o seu velho e fiel cachorro estava ao seu lado, certamente sem saber o porquê de tudo aquilo!
Puseram o corpo do velho vaqueiro atravessado na sua sela e o levaram para o João Vieira onde houve uma noite de “sentinela” em seu louvor, sendo o mesmo sepultado no dia seguinte no cemitério de Macapá, hoje Jati.
E ainda hoje se fala da morte de João Massa acontecida na década de 1920! E eu, muitas vezes, quando rapazote, selei o meu cavalo e fui visitar a cruz de João Massa na quebrada da fazenda Caboclo, imortalizada como “A cruz de João Massa” de onde hoje, se avista o belo “pano d’água” do grande açude do Caboclo. E haja saudade.
Napoleão Tavares Neves, 17.7.2.11.
(assinado embaixo)    
E João Massa não voltou!
E João Massa não voltou naquela tarde invernosa em que ele saiu encourado para as bandas da fazenda Caboclo, também do Coronel Né Rosendo, vizinha da fazenda João Vieira onde ele era vaqueiro.
A tarde caiu e João Massa não chegou para a luta das vacas paridas no curral! Todos estranharam! O que teria acontecido? João Massa era bom vaqueiro: cumpridor dos seus deveres, honesto, dedicado, trabalhador.
Eis que, no lusco-fusco daquela tarde invernosa, ouviu-se o resfolegar de um cavalo que adentrava o páteo da velha fazenda.  Era o cavalo de João Massa com a brida pendurada. A fazenda toda se alvoroçou! Todos foram convocados para uma busca nos altos do caboclo, de mata virgem. Fachos de marmeleiro foram improvisados a escuridão da noite foi aclarada pelos fachos acesos dentro da mata. Lá para as tantas da noite, alguém ouviu o latido de um cachorro, certamente disperto pelo vozeiro e pela luz dos muitos fachos! Lá longe em uma quebrada do Caboclo, acima do velho açude, estava João Massa morto, sem ferimentos, mas morto e com um único conforto: o seu velho e fiel cachorro estava ao seu lado, certamente sem saber o porquê de tudo aquilo!
Puseram o corpo do velho vaqueiro atravessado na sua sela e o levaram para o João Vieira onde houve uma noite de “sentinela” em seu louvor, sendo o mesmo sepultado no dia seguinte no cemitério de Macapá, hoje Jati.
E ainda hoje se fala da morte de João Massa acontecida na década de 1920! E eu, muitas vezes, quando rapazote, selei o meu cavalo e fui visitar a cruz de João Massa na quebrada da fazenda Caboclo, imortalizada como “A cruz de João Massa” de onde hoje, se avista o belo “pano d’água” do grande açude do Caboclo. E haja saudade.
Napoleão Tavares Neves, 17.7.2.11.
(assinado embaixo)    

19 outubro 2011

AMIGO DAS ARTES
Queria ser cantor e até cantou quando jovem. Fez algumas serenatas, mas por exigência do bom senso e insistência dos amigos, desistiu, preferindo fazê-las à base da radiola – coisa que os mais novos terão que perguntar aos pais e avós do que se trata. Pensou ser Poeta e as rimas teimavam em tropeçar no seu juízo e se distanciar a cada tentativa. Nada, porém, o impedia de sonhar seu sonho: estava convicto de que seu caminho seria a arte. Comprou tintas, pincel e telas, achando que pintar era apenas juntar telas, pincel e tintas e sair derramando cores, lambuzando o branco. Numa manhã, já quase desistindo da vida artística, apareceu-lhe a oferta de emprego como projecionista de filmes no cinema do bairro onde morava (naquele tempo os bairros tinham cinema). À tarde, aceitou o convite. Na mesma noite quente de um agosto quase virando setembro foi ao Teatro, sentou-se na primeira fila, mas não gostou do show de João Gilberto. O restante da platéia aplaudiu-o de pé. Dia seguinte, na sessão das 7, iniciou sua carreira no cinema. Aposentou-se ano passado.

AMIGO DAS ARTES
Queria ser cantor e até cantou quando jovem. Fez algumas serenatas, mas por exigência do bom senso e insistência dos amigos, desistiu, preferindo fazê-las à base da radiola – coisa que os mais novos terão que perguntar aos pais e avós do que se trata. Pensou ser Poeta e as rimas teimavam em tropeçar no seu juízo e se distanciar a cada tentativa. Nada, porém, o impedia de sonhar seu sonho: estava convicto de que seu caminho seria a arte. Comprou tintas, pincel e telas, achando que pintar era apenas juntar telas, pincel e tintas e sair derramando cores, lambuzando o branco. Numa manhã, já quase desistindo da vida artística, apareceu-lhe a oferta de emprego como projecionista de filmes no cinema do bairro onde morava (naquele tempo os bairros tinham cinema). À tarde, aceitou o convite. Na mesma noite quente de um agosto quase virando setembro foi ao Teatro, sentou-se na primeira fila, mas não gostou do show de João Gilberto. O restante da platéia aplaudiu-o de pé. Dia seguinte, na sessão das 7, iniciou sua carreira no cinema. Aposentou-se ano passado.

12 outubro 2011

Esrórias de Seu Deusin e Outros

FINAL DE EXPEDIENTE.
Seu Deuzin estava num daqueles expedientes, próximos ao final de semana, esperando só  a hora de ir prá casa. Seu chefe, grande amigo d’Ele (e nosso), Dr. Napoleão Tavares Neves lhe pergunta:
“Amadeu como vão as coisas?”
Seu Deuzim responde:
-“O caba que disser que tá com mais preguiça que eu é mentiroso e gabola.”

Esrórias de Seu Deusin e Outros

FINAL DE EXPEDIENTE.
Seu Deuzin estava num daqueles expedientes, próximos ao final de semana, esperando só  a hora de ir prá casa. Seu chefe, grande amigo d’Ele (e nosso), Dr. Napoleão Tavares Neves lhe pergunta:
“Amadeu como vão as coisas?”
Seu Deuzim responde:
-“O caba que disser que tá com mais preguiça que eu é mentiroso e gabola.”