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13 novembro 2013

Rir e Chorar


E ali estava ele. Rindo. Um riso tímido, contido, calado, mas um riso, como que a zombar da vida, do povo que passava, da tarde que começava a se aproximar da noite. Como explicar aquele riso? O que é um riso? No caso dele, era apenas a boca se alongando um pouco além em suas extremidades. Teria ele motivos para rir? Seus projetos de vida estavam satisfeitos? Era feliz? Seu time ganhara o campeonato? Seria um sinal de felicidade ou um disfarce por não poder chorar? Quem explica o rir? Perguntar-lhe, não adiantaria, pois, por motivo algum, ele interromperia aquele riso para responder. A família, os filhos, amigos e vizinhos queriam entender o porquê daquele riso, muito embora pouco importasse sua razão, pouco importasse o riso. Entre choros e velas somente ele ria. Apenas ria. Ria da vida que passara.

09 dezembro 2012


MISSA DE 100 ANOS DE VEBIS
Uma chama há cem anos acendida
Há de arder pelo tempo, eternidade
Pois o fogo do amor e da bondade
Permanece aceso por toda a vida
Se no peito a bondade fez guarida
Foi troca que o bom deus um dia quis
E a família, tão unida, vê feliz
O fogo desse amor se propagar
Foram as mãos de dona brito a aguar
A semente plantada por Vebis

Xico Bizerra

11 novembro 2012


RAMIRO, O BELO
Ramiro era muito feio e todos os bonitões da cidade riam de sua feiúra. Descaradamente. Até os que também eram feios riam de sua feiúra, tão feia que era. Ele não se importava e seguia a vida, carregando bagagens na estação de trem, trabalhando como chapeado: era assim que se chamavam aqueles que transportavam malas, identificados por um número na chapa de bronze colada ao quepe: O dele era o 341. Um dia Ramiro ganhou de um viajante um espelho encantado que refletia a alma das pessoas que nele se olhassem. Ramiro olhou, viu-se e passou a rir da feiúra de todos os bonitões da cidade. Discretamente, sem que ninguém percebesse o seu riso. Como era feio aquele povo! Como era belo o Ramiro!

30 setembro 2012

A CASA E A BOLA


Na esquina, a casa e fronteiriça com ela, separada apenas por uma cerca de arame farpado, o improvisado campinho de pelada. Inevitável que, vez por outra, a bola caísse naquele terreno, às vezes quebrando o vidro da janela, às vezes batendo em alguém, às vezes nada acontecendo, mas sempre irritando o pai de Teté. Quando ele estava em casa, nessas situações a bola ficava retida e só era devolvida uma semana depois. Considerava o castigo justo para quem não atendia aos seus pedidos de cuidado. Pior era na casa da outra fronteira: seu Armindo furava a bola, na hora. Em ambos os casos o jogo terminava antes dos 45 do segundo tempo. Quando seu pai não estava, o pequeno Teté devolvia a bola e continuava assistindo ao jogo, sentado à beira do ‘gramado’, do lado de cá da cerca. Ainda hoje, 50 anos depois, Teté gosta de futebol. Ainda hoje devolveria as bolas se por acaso elas caíssem no terreno de sua casa.
Xico Bizerra

A CASA E A BOLA


Na esquina, a casa e fronteiriça com ela, separada apenas por uma cerca de arame farpado, o improvisado campinho de pelada. Inevitável que, vez por outra, a bola caísse naquele terreno, às vezes quebrando o vidro da janela, às vezes batendo em alguém, às vezes nada acontecendo, mas sempre irritando o pai de Teté. Quando ele estava em casa, nessas situações a bola ficava retida e só era devolvida uma semana depois. Considerava o castigo justo para quem não atendia aos seus pedidos de cuidado. Pior era na casa da outra fronteira: seu Armindo furava a bola, na hora. Em ambos os casos o jogo terminava antes dos 45 do segundo tempo. Quando seu pai não estava, o pequeno Teté devolvia a bola e continuava assistindo ao jogo, sentado à beira do ‘gramado’, do lado de cá da cerca. Ainda hoje, 50 anos depois, Teté gosta de futebol. Ainda hoje devolveria as bolas se por acaso elas caíssem no terreno de sua casa.
Xico Bizerra

03 junho 2012

ANDAR É BOM

Andar, acordar cedo, olhar pela janela e ver um céu ainda escuro clareado por uma luzinha solitária. Um avião que passa, um pára-raios que não passa ou um vagalume a pirilampear na madrugada? Ou seria um pirilampo vagalumeando a manhã que está chegando? Virar de lado, não andar, fechar os olhos, re-dormir. Deixar de perder alguns quilos, ganhar o conforte de um lençol quentinho numa madrugada escura e esfriada pela preguiça do sol. Amanhã, a mesma manhã, a mesma janela, o mesmo céu, o mesmo não-andar. Ao final do dia, gramas e felicidades a mais. E o sol, tão preguiçoso quanto eu. .

ANDAR É BOM

Andar, acordar cedo, olhar pela janela e ver um céu ainda escuro clareado por uma luzinha solitária. Um avião que passa, um pára-raios que não passa ou um vagalume a pirilampear na madrugada? Ou seria um pirilampo vagalumeando a manhã que está chegando? Virar de lado, não andar, fechar os olhos, re-dormir. Deixar de perder alguns quilos, ganhar o conforte de um lençol quentinho numa madrugada escura e esfriada pela preguiça do sol. Amanhã, a mesma manhã, a mesma janela, o mesmo céu, o mesmo não-andar. Ao final do dia, gramas e felicidades a mais. E o sol, tão preguiçoso quanto eu. .

28 março 2012

ERA UMA VEZ UMA FEIRA 
Na rua da Igreja, beatas e feira. Feira de primeira. Toda segunda-feira. De verdura, cereais, mas principalmente, a colorida feira das frutas. Das jaboticabas roxinhas, limões verdes, pitangas vermelhas. Tamarindos marrons e azedos se juntavam a doces siriguelas amarelinhas para enfeitar a banca de Mané Gordão e a boca gulosa da meninada. Às vezes eram vistas acerolas cor de acerola e, quase nunca, carambolas, estas de uma cor sei-lá-que-cor. Os olhos brilhavam diante da aquarela de sabores, das goiabas e maçãs, das mangas e cajus... Onde estão as feiras? Onde se escondem as frutas? Onde brilham as cores? Hoje, aquela rua só tem as beatas. A feira mudou-se para o ar condicionado: lá, as frutas têm sabor acre e as cores se desbotam, se esvaem, lembrando do burburinho e com saudades da mão gorda de Mané a afagá-las. Na hora de pagar o dinheiro é de plástico. Na fila do caixa, sem a zoada da feira, uma criança chupa chiclete (chupa uma bala de sabor artyificial). Do lado de fora, outra criança pede esmola. Alguém oferece uma laranja amarga.
ERA UMA VEZ UMA FEIRA 
Na rua da Igreja, beatas e feira. Feira de primeira. Toda segunda-feira. De verdura, cereais, mas principalmente, a colorida feira das frutas. Das jaboticabas roxinhas, limões verdes, pitangas vermelhas. Tamarindos marrons e azedos se juntavam a doces siriguelas amarelinhas para enfeitar a banca de Mané Gordão e a boca gulosa da meninada. Às vezes eram vistas acerolas cor de acerola e, quase nunca, carambolas, estas de uma cor sei-lá-que-cor. Os olhos brilhavam diante da aquarela de sabores, das goiabas e maçãs, das mangas e cajus... Onde estão as feiras? Onde se escondem as frutas? Onde brilham as cores? Hoje, aquela rua só tem as beatas. A feira mudou-se para o ar condicionado: lá, as frutas têm sabor acre e as cores se desbotam, se esvaem, lembrando do burburinho e com saudades da mão gorda de Mané a afagá-las. Na hora de pagar o dinheiro é de plástico. Na fila do caixa, sem a zoada da feira, uma criança chupa chiclete (chupa uma bala de sabor artyificial). Do lado de fora, outra criança pede esmola. Alguém oferece uma laranja amarga.

20 fevereiro 2012

RIO DE TODOS OS JANEIROS
Conhecia, de fotos e de ouvir falar, a beleza do Rio de Janeiro. Cidade Maravilhosa. Luzes, Morros, Praias. Agora, estava lá, de verdade. Sua aldeia amada não tinha pães-de-açúcar nem corcovados. Seu Cristo Redentor era uma pequena imagem de Frei Damião, pouco mais de metro e meio, na praça principal, em frente à Prefeitura, sem colete a prova de balas, por não precisar. Sua Copacabana era o Açude, com menos água que o mar, mas tão belo quanto. Era o que amava, ali nascera. Mas não havia dúvidas quanto à beleza do Rio.

Principalmente quando visto do alto, da janelinha do avião, na viagem de volta. Seu lugarejo era seu chão, seu céu, seu rio, de janeiro a dezembro. E as balas, quando necessárias, sempre achavam o endereço certo, nunca se perdiam, desde os tempos de Lampião.
RIO DE TODOS OS JANEIROS
Conhecia, de fotos e de ouvir falar, a beleza do Rio de Janeiro. Cidade Maravilhosa. Luzes, Morros, Praias. Agora, estava lá, de verdade. Sua aldeia amada não tinha pães-de-açúcar nem corcovados. Seu Cristo Redentor era uma pequena imagem de Frei Damião, pouco mais de metro e meio, na praça principal, em frente à Prefeitura, sem colete a prova de balas, por não precisar. Sua Copacabana era o Açude, com menos água que o mar, mas tão belo quanto. Era o que amava, ali nascera. Mas não havia dúvidas quanto à beleza do Rio.

Principalmente quando visto do alto, da janelinha do avião, na viagem de volta. Seu lugarejo era seu chão, seu céu, seu rio, de janeiro a dezembro. E as balas, quando necessárias, sempre achavam o endereço certo, nunca se perdiam, desde os tempos de Lampião.

25 novembro 2011

RECEITA DE AMOR


Insônia das brabas, olhos teimosos sem querer fechar. Abriu o livro, aleatoriamente, e leu um Poema qualquer, também de forma aleatória. Fechou o livro, beijou a mulher e recitou-lhe um verso. Amaram-se. No outro dia, a mulher tomou-lhe das mãos o livro, abriu-o, aleatoriamente, e leu um Poema qualquer, também de forma aleatória. Amaram-se. Toda semana iam à Livraria à busca de novos livros de Poesia. Nas bodas de prata, deram-se, um ao outro, um livro de Drummond. Ficam na cabeceira da cama.

RECEITA DE AMOR


Insônia das brabas, olhos teimosos sem querer fechar. Abriu o livro, aleatoriamente, e leu um Poema qualquer, também de forma aleatória. Fechou o livro, beijou a mulher e recitou-lhe um verso. Amaram-se. No outro dia, a mulher tomou-lhe das mãos o livro, abriu-o, aleatoriamente, e leu um Poema qualquer, também de forma aleatória. Amaram-se. Toda semana iam à Livraria à busca de novos livros de Poesia. Nas bodas de prata, deram-se, um ao outro, um livro de Drummond. Ficam na cabeceira da cama.

09 novembro 2011

LIA
João era um menino muito impossível, como dizia minha avó. Suas babás demoravam muito pouco no emprego. Lia, não. Magrinha, crente e míope Lia pesava pouco, orava muito e enxergava quase nada, mas tinha o maior respeito de João que nunca lhe escondia os óculos. Lia só não podia levá-lo à praia, de manhã cedo, pois a mãe de João não confiava o atravessar da Bernardo Vieira daquela criatura com 23 graus em um olho, 21 no outro e com um João danado nos braços. João, hoje, vai à praia todo fim-de-semana, trabalha com vendas e estuda marketing em uma faculdade do Grande Recife. Lia, soubemos há pouco, casou, teve dois filhos, fez cirurgia ocular e continua crente. Não mais usa óculos nem tem tanto tempo para orar. Às vezes, leva seus filhos à praia.
LIA
João era um menino muito impossível, como dizia minha avó. Suas babás demoravam muito pouco no emprego. Lia, não. Magrinha, crente e míope Lia pesava pouco, orava muito e enxergava quase nada, mas tinha o maior respeito de João que nunca lhe escondia os óculos. Lia só não podia levá-lo à praia, de manhã cedo, pois a mãe de João não confiava o atravessar da Bernardo Vieira daquela criatura com 23 graus em um olho, 21 no outro e com um João danado nos braços. João, hoje, vai à praia todo fim-de-semana, trabalha com vendas e estuda marketing em uma faculdade do Grande Recife. Lia, soubemos há pouco, casou, teve dois filhos, fez cirurgia ocular e continua crente. Não mais usa óculos nem tem tanto tempo para orar. Às vezes, leva seus filhos à praia.

19 outubro 2011

AMIGO DAS ARTES
Queria ser cantor e até cantou quando jovem. Fez algumas serenatas, mas por exigência do bom senso e insistência dos amigos, desistiu, preferindo fazê-las à base da radiola – coisa que os mais novos terão que perguntar aos pais e avós do que se trata. Pensou ser Poeta e as rimas teimavam em tropeçar no seu juízo e se distanciar a cada tentativa. Nada, porém, o impedia de sonhar seu sonho: estava convicto de que seu caminho seria a arte. Comprou tintas, pincel e telas, achando que pintar era apenas juntar telas, pincel e tintas e sair derramando cores, lambuzando o branco. Numa manhã, já quase desistindo da vida artística, apareceu-lhe a oferta de emprego como projecionista de filmes no cinema do bairro onde morava (naquele tempo os bairros tinham cinema). À tarde, aceitou o convite. Na mesma noite quente de um agosto quase virando setembro foi ao Teatro, sentou-se na primeira fila, mas não gostou do show de João Gilberto. O restante da platéia aplaudiu-o de pé. Dia seguinte, na sessão das 7, iniciou sua carreira no cinema. Aposentou-se ano passado.

AMIGO DAS ARTES
Queria ser cantor e até cantou quando jovem. Fez algumas serenatas, mas por exigência do bom senso e insistência dos amigos, desistiu, preferindo fazê-las à base da radiola – coisa que os mais novos terão que perguntar aos pais e avós do que se trata. Pensou ser Poeta e as rimas teimavam em tropeçar no seu juízo e se distanciar a cada tentativa. Nada, porém, o impedia de sonhar seu sonho: estava convicto de que seu caminho seria a arte. Comprou tintas, pincel e telas, achando que pintar era apenas juntar telas, pincel e tintas e sair derramando cores, lambuzando o branco. Numa manhã, já quase desistindo da vida artística, apareceu-lhe a oferta de emprego como projecionista de filmes no cinema do bairro onde morava (naquele tempo os bairros tinham cinema). À tarde, aceitou o convite. Na mesma noite quente de um agosto quase virando setembro foi ao Teatro, sentou-se na primeira fila, mas não gostou do show de João Gilberto. O restante da platéia aplaudiu-o de pé. Dia seguinte, na sessão das 7, iniciou sua carreira no cinema. Aposentou-se ano passado.

01 setembro 2011


MARISOL DOS SONHOS JUVENIS 
Eu sabia que não era verdade, que era apenas pabulagem. Ele mentia para me fazer inveja, só porque morava na capital e eu era um menino besta do interior. Chatice de menino chato. Tinha certeza que ele não vira, mesmo morando na capital, o último filme de Marisol, em que ela volta de Madri pra sua aldeia natal. Curioso, perguntei-lhe como ela fizera a viagem, se de avião ou de ônibus. Ele baixou os olhos e num tom de voz quase inaudível, próprio dos inimigos da verdade, respondeu-me que fora de avião. Desconversou, mudou de assunto e fomos jogar bola. Quando o filme passou no Crato, encantei-me com a volta de Marisol pra sua cidade. Embelezando o já naturalmente belo, suas madeixas amarelas e um vestidinho da mesma cor. O mar estava lindo, combinando com Marisol. Ela não enjoou na viagem e cantava como nunca.
Xico Bizerra

MARISOL DOS SONHOS JUVENIS 
Eu sabia que não era verdade, que era apenas pabulagem. Ele mentia para me fazer inveja, só porque morava na capital e eu era um menino besta do interior. Chatice de menino chato. Tinha certeza que ele não vira, mesmo morando na capital, o último filme de Marisol, em que ela volta de Madri pra sua aldeia natal. Curioso, perguntei-lhe como ela fizera a viagem, se de avião ou de ônibus. Ele baixou os olhos e num tom de voz quase inaudível, próprio dos inimigos da verdade, respondeu-me que fora de avião. Desconversou, mudou de assunto e fomos jogar bola. Quando o filme passou no Crato, encantei-me com a volta de Marisol pra sua cidade. Embelezando o já naturalmente belo, suas madeixas amarelas e um vestidinho da mesma cor. O mar estava lindo, combinando com Marisol. Ela não enjoou na viagem e cantava como nunca.
Xico Bizerra

07 agosto 2011

SÓIS QUENTES

Juntou os bregueços, botou o pé na estrada e tome léguas... Para trás, um sol escaldante, um roçado infértil, uma mulher fértil e cinco filhos pequenos. Todo ano vinha aquela vontade, mas agora era pra valer. O Sudeste maravilha o esperava, a sorte estava lançada. Seus planos, sua vida, tudo mal cabia em sua cabeça, num sentimento só misturado com a saudade. Seus santos o protegeriam na terra distante e desconhecida. Tinha fé. O futuro? A Deus pertence, desde cedo aprendera. E tome léguas... Em São Paulo, sem roçado, sem mulher, sem filhos, apenas com a saudade preenchendo a alma, fazia um sol danado de quente.
Xico Bizerra (Croniquetas de uma manhã de Sol)