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31 janeiro 2012


Criação de peba
O sítio Saco sempre foi o “MEU PARAISO SEM O PECADO ORIGINAL!”
Ali a natureza é pródiga em tudo e eu vivi no meio dela observando tudo e com ela aprendendo a viver.
Certa vez, nos meus lindos 10 anos de idade, decidi criar um peba. O bichinho era dócil e ativo.
Um belo dia, pleno outubro, seca de esturricar tudo, o peba surgiu do nosso jardim em desabalada carreira. Cavou um buraco no pé de uma ribanceira, depois entrou no buraco de costas e puxou para obturar-lhe a entrada, toda a folhagem seca de um pé de carambola. Ficamos atentos, eu e o velho Antônio Farosa.
Em duas horas, bateu uma chuva torrencial que tudo alagou, mas não entrou água no buraco do peba que continuou bem refestelado no seu leito de folhas secas. Ficamos atônitos com tudo aquilo e o velho Antônio Farosa, na sua filosofia matuta, disse: O governo devia era chamar os pebas para advinharem chuvas!
Efetivamente o peba deve ter sentido a umidade do ar e se preparado para, estrategicamente, enfrentar o aguaceiro. Nunca esqueci aquela bucólica cena. Perece que estou a vê-lo puxando folhas com as patas em grande azáfama. A natureza, sinônimo de Deus, tem os seus mistérios e saberes.
Napoleão Tavares Neves, 2.11.2.11
(assinado em baixo)

Criação de peba
O sítio Saco sempre foi o “MEU PARAISO SEM O PECADO ORIGINAL!”
Ali a natureza é pródiga em tudo e eu vivi no meio dela observando tudo e com ela aprendendo a viver.
Certa vez, nos meus lindos 10 anos de idade, decidi criar um peba. O bichinho era dócil e ativo.
Um belo dia, pleno outubro, seca de esturricar tudo, o peba surgiu do nosso jardim em desabalada carreira. Cavou um buraco no pé de uma ribanceira, depois entrou no buraco de costas e puxou para obturar-lhe a entrada, toda a folhagem seca de um pé de carambola. Ficamos atentos, eu e o velho Antônio Farosa.
Em duas horas, bateu uma chuva torrencial que tudo alagou, mas não entrou água no buraco do peba que continuou bem refestelado no seu leito de folhas secas. Ficamos atônitos com tudo aquilo e o velho Antônio Farosa, na sua filosofia matuta, disse: O governo devia era chamar os pebas para advinharem chuvas!
Efetivamente o peba deve ter sentido a umidade do ar e se preparado para, estrategicamente, enfrentar o aguaceiro. Nunca esqueci aquela bucólica cena. Perece que estou a vê-lo puxando folhas com as patas em grande azáfama. A natureza, sinônimo de Deus, tem os seus mistérios e saberes.
Napoleão Tavares Neves, 2.11.2.11
(assinado em baixo)

09 dezembro 2011

A infância do Napoleão no Sitio Saco dos tempos do Tio Quincas e do Pai Né Rosendo


Em carta pessoal para Marcos, o Dr. Napoleão Tavares Neves relatou os seguintes fatos relacionados com a sua infância no Sítio Saco dos tempos do Tio Quincas e do Pai Né Rosendo.


No tempo do Saco de Joaquin Neves, o Saco era autosuficiente em tudo, fabricando aguardente e até álcool, em um rústico alambique artesanal. No engenho de Pai Né fabricava-se até açúcar, a partir do melaço da rapadura. Houve época no Saco, antes do advento da energia de Paulo Afonso, que a casa do tio Alboino era iluminada com energia elétrica da Nascente Grande do Saco, caindo em uma roda hidráulica dentada, de madeira, acionando um gerador. Nesta nascente, uma das mais caudalosas do Cariri, quando menino, costumava esperar o gado que descia da Chapada do Araripe para beber. Vezes, ficava o dia inteiro lá com os vaqueiros, esperando o gado que descia. O gado descia liderado por uma vaca de chocalho que tinha liderança sobre o seu grupo e o vaqueiro, José Felix, ao ouvir ao longe o tom do chocalho dizia: “Lá vem a vaca Princesa com a sua maromba” e era mesmo!
Entre uma manada e outra, eu ficava tomando banho na fonte e brincando de fazer cavalo de vargem de mucunã, ali muito encontradiça.
E olhe que a mais saborosa carne é a carne dos alforges dos vaqueiros, porque o chôto dos cavalos o dia inteiro, faz impregnar o sal na carne, tornando de sabor inigualável! É típica de carne de alforge!  E às vezes comia-se carne com piqui assado na brasa. Uma delícia! A comida típica do vaqueiro, tendo como prato a tampa do alforge, é sempre carne assada, com farinha e rapadura raspada e queijo. Um manjá, sobretudo para menino! Todo vaqueiro conduz a sua comida nos alforges, a sua rede na maca e a ração de milho para o cavalo em um surrão de couro.
Os vaqueiros do Saco recebiam por semana, cada um, 2 quilos de carne boa, por eles escolhida. Era uma casta privilegiada, respeitada, acatada e que comia na mesa com o patrão. Cada um tinha 4 cavalos bons, gordos e um burro para o traqueijo do gado. Cada vaqueiro chegava a possuir até 50 reses criadas junto com as do patrão e sorteavam de 4/um, isto é, de cada 4 bezerros nascidos, um era do vaqueiro.
Outra casta muito acatada e bem acolhida no Saco do meu tempo eram os comboeiros da rapadura. Não havia caminhão e toda a produção de rapadura até 1940 ara tirada em costas de burros, sobretudo comboeiros dos sertões da Paraíba e até do Rio Grande do Norte. Lembro-me de comboeiros do condado de Patos, Souza, Antenor Navarro e, sobretudo do Açude de Curemas que se dizia ser o maior do Brasil. O comboeiro João Daniel ficava até alta noite empaiolando rapadura no rancho de engenho e contando as lendas do Açude de Curemas. Era simpático, respeitável e comia na mesa com Pai Né. Tinha 25 burros famosos dividido por 5 comboeiros, todos filhos ou genros. Na hora da saída da tropa Pai Né dava 25 rapaduras para comerem na longa travessia. A burra da guia era amestrada e a primeira a ser carregada, após o que ele dava um açoite e ela ficava rodopiando, em círculo. A cada burro que era carregado, novo açoite com a linha de comboeiro e o animal juntava-se aos outros, rodopiando. Certa vez, perguntei-lhe: Por que eles têm que rodopiar? Resposta: “É o que chamamos de aquecimento. Se não fizer isto os burros se deitam com as cargas.” Na hora da saída, Pai Né fazia a conta e ele pagava em espécie, retirando o dinheiro de um patuá de sola enfeitado. Eita tempo bom danado, Marcos!
Napoleão Tavares Neves, 2.11.2.11
(assinado em baixo)
A infância do Napoleão no Sitio Saco dos tempos do Tio Quincas e do Pai Né Rosendo


Em carta pessoal para Marcos, o Dr. Napoleão Tavares Neves relatou os seguintes fatos relacionados com a sua infância no Sítio Saco dos tempos do Tio Quincas e do Pai Né Rosendo.


No tempo do Saco de Joaquin Neves, o Saco era autosuficiente em tudo, fabricando aguardente e até álcool, em um rústico alambique artesanal. No engenho de Pai Né fabricava-se até açúcar, a partir do melaço da rapadura. Houve época no Saco, antes do advento da energia de Paulo Afonso, que a casa do tio Alboino era iluminada com energia elétrica da Nascente Grande do Saco, caindo em uma roda hidráulica dentada, de madeira, acionando um gerador. Nesta nascente, uma das mais caudalosas do Cariri, quando menino, costumava esperar o gado que descia da Chapada do Araripe para beber. Vezes, ficava o dia inteiro lá com os vaqueiros, esperando o gado que descia. O gado descia liderado por uma vaca de chocalho que tinha liderança sobre o seu grupo e o vaqueiro, José Felix, ao ouvir ao longe o tom do chocalho dizia: “Lá vem a vaca Princesa com a sua maromba” e era mesmo!
Entre uma manada e outra, eu ficava tomando banho na fonte e brincando de fazer cavalo de vargem de mucunã, ali muito encontradiça.
E olhe que a mais saborosa carne é a carne dos alforges dos vaqueiros, porque o chôto dos cavalos o dia inteiro, faz impregnar o sal na carne, tornando de sabor inigualável! É típica de carne de alforge!  E às vezes comia-se carne com piqui assado na brasa. Uma delícia! A comida típica do vaqueiro, tendo como prato a tampa do alforge, é sempre carne assada, com farinha e rapadura raspada e queijo. Um manjá, sobretudo para menino! Todo vaqueiro conduz a sua comida nos alforges, a sua rede na maca e a ração de milho para o cavalo em um surrão de couro.
Os vaqueiros do Saco recebiam por semana, cada um, 2 quilos de carne boa, por eles escolhida. Era uma casta privilegiada, respeitada, acatada e que comia na mesa com o patrão. Cada um tinha 4 cavalos bons, gordos e um burro para o traqueijo do gado. Cada vaqueiro chegava a possuir até 50 reses criadas junto com as do patrão e sorteavam de 4/um, isto é, de cada 4 bezerros nascidos, um era do vaqueiro.
Outra casta muito acatada e bem acolhida no Saco do meu tempo eram os comboeiros da rapadura. Não havia caminhão e toda a produção de rapadura até 1940 ara tirada em costas de burros, sobretudo comboeiros dos sertões da Paraíba e até do Rio Grande do Norte. Lembro-me de comboeiros do condado de Patos, Souza, Antenor Navarro e, sobretudo do Açude de Curemas que se dizia ser o maior do Brasil. O comboeiro João Daniel ficava até alta noite empaiolando rapadura no rancho de engenho e contando as lendas do Açude de Curemas. Era simpático, respeitável e comia na mesa com Pai Né. Tinha 25 burros famosos dividido por 5 comboeiros, todos filhos ou genros. Na hora da saída da tropa Pai Né dava 25 rapaduras para comerem na longa travessia. A burra da guia era amestrada e a primeira a ser carregada, após o que ele dava um açoite e ela ficava rodopiando, em círculo. A cada burro que era carregado, novo açoite com a linha de comboeiro e o animal juntava-se aos outros, rodopiando. Certa vez, perguntei-lhe: Por que eles têm que rodopiar? Resposta: “É o que chamamos de aquecimento. Se não fizer isto os burros se deitam com as cargas.” Na hora da saída, Pai Né fazia a conta e ele pagava em espécie, retirando o dinheiro de um patuá de sola enfeitado. Eita tempo bom danado, Marcos!
Napoleão Tavares Neves, 2.11.2.11
(assinado em baixo)

19 novembro 2011

Com 11 filhos de três sucessivos e ajustados casamentos, Osmundo, sempre
 alegre e sorridente, percorria as mesas postas de baixo de um frondoso
 juazeiro, andando com desenvoltura e sem bengala, como se tivesse 18 anos!
 Nunca vi coisa igual em um rijo varão de 98 anos que, ainda hoje, no seu
 caminhão, faz semanalmente a linha Crato, Feira de Granito e do Parnamirim,
 já planejando a comemoração do seu esperado Centenário. Impressionante!
 Houve uma bonita para-liturgia feita por sua primogênita, Tezinha, ao fim da
 qual, Osmundo declamou sem titubear, com voz forte e sem pestanejar um poema
 do poeta sertanejo, Otacilio Pereira de Carvalho, arrancando aplausos e
 admiração dos presentes!
 Enquanto isto, “O SOL TIRAVA FAISCAS
                           DO LEITO DO BRIGIDA SECO”!
 Até o calor sertanejo foi amenizado pela brisa que soprava nas margens do
 Riacho da Brígida!
 Tudo decorreu em agradável clima familiar sem uma só nota dissonante!
 Ali estavam parentes, amigos e um vasto ciclo familiar integrado por 11
 filhos e seus numerosos descendentes.
 Um saboroso churrasco foi servido, seguido por um suculento e bem sertanejo
 almoço, tudo isto ao ronco de uma sanfona que executava músicas bem
 brejeiras de Luiz Gonzaga, o conhecido SAFONEIRO DO RIACHO DA BRÍGIDA,
 segundo expressão do escritor Sinval Sá. E Osmundo ainda dançou um xote com
 a esposa, Deuva!
 Enquanto isto, netos e bisnetos do aniversariante, de deliciavam nas águas
 de uma piscina ali mesmo fincada na sombra acolhedora de um juazeiro que,
 até parece, renovou a sua folhagem para a bonita e rara comemoração.
 E os belos e floridos pausdarcos das quebradas da Chapada do Araripe, como
 que fizeram o pano de fundo do álacre evento, colorindo de lindo amarelo as
 encostadas da Chapada, no seu lado pernambucano!
 E aqui é o jeito repetir o cantador sertanejo, Lourival Bandeira:
 “AO LONGE SINTO SAUDADES DE UMA FESTA NO SERTÃO”!!!
 Decididamente, foi um domingo diferente, com o inconfundível  verniz da
 família cristã sertaneja que é, com certeza, a melhor e mais forte
 instituição nacional, base mesma da Nacionalidade!
 Barbalha, 13.11.2011. Napoleão Tavares Neves.

Com 11 filhos de três sucessivos e ajustados casamentos, Osmundo, sempre
 alegre e sorridente, percorria as mesas postas de baixo de um frondoso
 juazeiro, andando com desenvoltura e sem bengala, como se tivesse 18 anos!
 Nunca vi coisa igual em um rijo varão de 98 anos que, ainda hoje, no seu
 caminhão, faz semanalmente a linha Crato, Feira de Granito e do Parnamirim,
 já planejando a comemoração do seu esperado Centenário. Impressionante!
 Houve uma bonita para-liturgia feita por sua primogênita, Tezinha, ao fim da
 qual, Osmundo declamou sem titubear, com voz forte e sem pestanejar um poema
 do poeta sertanejo, Otacilio Pereira de Carvalho, arrancando aplausos e
 admiração dos presentes!
 Enquanto isto, “O SOL TIRAVA FAISCAS
                           DO LEITO DO BRIGIDA SECO”!
 Até o calor sertanejo foi amenizado pela brisa que soprava nas margens do
 Riacho da Brígida!
 Tudo decorreu em agradável clima familiar sem uma só nota dissonante!
 Ali estavam parentes, amigos e um vasto ciclo familiar integrado por 11
 filhos e seus numerosos descendentes.
 Um saboroso churrasco foi servido, seguido por um suculento e bem sertanejo
 almoço, tudo isto ao ronco de uma sanfona que executava músicas bem
 brejeiras de Luiz Gonzaga, o conhecido SAFONEIRO DO RIACHO DA BRÍGIDA,
 segundo expressão do escritor Sinval Sá. E Osmundo ainda dançou um xote com
 a esposa, Deuva!
 Enquanto isto, netos e bisnetos do aniversariante, de deliciavam nas águas
 de uma piscina ali mesmo fincada na sombra acolhedora de um juazeiro que,
 até parece, renovou a sua folhagem para a bonita e rara comemoração.
 E os belos e floridos pausdarcos das quebradas da Chapada do Araripe, como
 que fizeram o pano de fundo do álacre evento, colorindo de lindo amarelo as
 encostadas da Chapada, no seu lado pernambucano!
 E aqui é o jeito repetir o cantador sertanejo, Lourival Bandeira:
 “AO LONGE SINTO SAUDADES DE UMA FESTA NO SERTÃO”!!!
 Decididamente, foi um domingo diferente, com o inconfundível  verniz da
 família cristã sertaneja que é, com certeza, a melhor e mais forte
 instituição nacional, base mesma da Nacionalidade!
 Barbalha, 13.11.2011. Napoleão Tavares Neves.

03 novembro 2011

Homenagem Merecida

Inauguração do Posto de Saude da Familia
Foi inaugurado na Vila do Saquinho, em 04/10/2011, o Posto de Saúde Dr. Napoleão Tavares Neves, com multidão vinda de todo o município, convidada por um carro de som. Foi uma belíssima festa, inclusive com a Banda Municipal de Porteiras, com o Pároco que benzeu o Posto, Prefeito, Vice-Prefeito, Vereadores, Fernando Luz que veio de Jardim, moradores, autoridades. Ranilda e Romilda ofereceram um lauto almoço
aos convidados na Casa grande do Sitio Saco para 70 convidados. Vários oradores ocuparam o serviço de som volante dizendo da justeza da homenagem. Todos os irmãos,cunhadas, sobrinhos, primos e tios compareceram. DEUS SEJA LOUVADO POR TUDO.
Napoleão Tavares Neves

Homenagem Merecida

Inauguração do Posto de Saude da Familia
Foi inaugurado na Vila do Saquinho, em 04/10/2011, o Posto de Saúde Dr. Napoleão Tavares Neves, com multidão vinda de todo o município, convidada por um carro de som. Foi uma belíssima festa, inclusive com a Banda Municipal de Porteiras, com o Pároco que benzeu o Posto, Prefeito, Vice-Prefeito, Vereadores, Fernando Luz que veio de Jardim, moradores, autoridades. Ranilda e Romilda ofereceram um lauto almoço
aos convidados na Casa grande do Sitio Saco para 70 convidados. Vários oradores ocuparam o serviço de som volante dizendo da justeza da homenagem. Todos os irmãos,cunhadas, sobrinhos, primos e tios compareceram. DEUS SEJA LOUVADO POR TUDO.
Napoleão Tavares Neves

21 outubro 2011

E João Massa não voltou!
E João Massa não voltou naquela tarde invernosa em que ele saiu encourado para as bandas da fazenda Caboclo, também do Coronel Né Rosendo, vizinha da fazenda João Vieira onde ele era vaqueiro.
A tarde caiu e João Massa não chegou para a luta das vacas paridas no curral! Todos estranharam! O que teria acontecido? João Massa era bom vaqueiro: cumpridor dos seus deveres, honesto, dedicado, trabalhador.
Eis que, no lusco-fusco daquela tarde invernosa, ouviu-se o resfolegar de um cavalo que adentrava o páteo da velha fazenda.  Era o cavalo de João Massa com a brida pendurada. A fazenda toda se alvoroçou! Todos foram convocados para uma busca nos altos do caboclo, de mata virgem. Fachos de marmeleiro foram improvisados a escuridão da noite foi aclarada pelos fachos acesos dentro da mata. Lá para as tantas da noite, alguém ouviu o latido de um cachorro, certamente disperto pelo vozeiro e pela luz dos muitos fachos! Lá longe em uma quebrada do Caboclo, acima do velho açude, estava João Massa morto, sem ferimentos, mas morto e com um único conforto: o seu velho e fiel cachorro estava ao seu lado, certamente sem saber o porquê de tudo aquilo!
Puseram o corpo do velho vaqueiro atravessado na sua sela e o levaram para o João Vieira onde houve uma noite de “sentinela” em seu louvor, sendo o mesmo sepultado no dia seguinte no cemitério de Macapá, hoje Jati.
E ainda hoje se fala da morte de João Massa acontecida na década de 1920! E eu, muitas vezes, quando rapazote, selei o meu cavalo e fui visitar a cruz de João Massa na quebrada da fazenda Caboclo, imortalizada como “A cruz de João Massa” de onde hoje, se avista o belo “pano d’água” do grande açude do Caboclo. E haja saudade.
Napoleão Tavares Neves, 17.7.2.11.
(assinado embaixo)    
E João Massa não voltou!
E João Massa não voltou naquela tarde invernosa em que ele saiu encourado para as bandas da fazenda Caboclo, também do Coronel Né Rosendo, vizinha da fazenda João Vieira onde ele era vaqueiro.
A tarde caiu e João Massa não chegou para a luta das vacas paridas no curral! Todos estranharam! O que teria acontecido? João Massa era bom vaqueiro: cumpridor dos seus deveres, honesto, dedicado, trabalhador.
Eis que, no lusco-fusco daquela tarde invernosa, ouviu-se o resfolegar de um cavalo que adentrava o páteo da velha fazenda.  Era o cavalo de João Massa com a brida pendurada. A fazenda toda se alvoroçou! Todos foram convocados para uma busca nos altos do caboclo, de mata virgem. Fachos de marmeleiro foram improvisados a escuridão da noite foi aclarada pelos fachos acesos dentro da mata. Lá para as tantas da noite, alguém ouviu o latido de um cachorro, certamente disperto pelo vozeiro e pela luz dos muitos fachos! Lá longe em uma quebrada do Caboclo, acima do velho açude, estava João Massa morto, sem ferimentos, mas morto e com um único conforto: o seu velho e fiel cachorro estava ao seu lado, certamente sem saber o porquê de tudo aquilo!
Puseram o corpo do velho vaqueiro atravessado na sua sela e o levaram para o João Vieira onde houve uma noite de “sentinela” em seu louvor, sendo o mesmo sepultado no dia seguinte no cemitério de Macapá, hoje Jati.
E ainda hoje se fala da morte de João Massa acontecida na década de 1920! E eu, muitas vezes, quando rapazote, selei o meu cavalo e fui visitar a cruz de João Massa na quebrada da fazenda Caboclo, imortalizada como “A cruz de João Massa” de onde hoje, se avista o belo “pano d’água” do grande açude do Caboclo. E haja saudade.
Napoleão Tavares Neves, 17.7.2.11.
(assinado embaixo)    

08 outubro 2011

Fabricação de Rapadura
A cultura canavieira do Cariri que já é coisa do passado, infelizmente, levando trapos doces da minha infância e juventude. E eu acredito esta “desgraça” ao “bicudo” que acabou com os algodoais do Nordeste cujos apanhadores de algodão eram os consumidores da nossa rapadura. Isto determinou o aviltamento do preço do produto de par com a Previdência Social que chegou aos engenhos obrigando aos senhores de engenho a assinarem as carteiras de trabalho dos seus cerca de 50 operários diários.
 “Em 1954, conforme Figueiredo Filho, o Cariri possuía em operação 284 engenhos, a força motriz, 12 movidos a bois e seis engenhos d’água – em Barbalha, Crato, Missão velha, Juazeiro do Norte e Jardim. Os 65 engenhos de Barbalha produziam 8,52 toneladas de rapadura e os 75 do Crato, 5,975 toneladas do produto. Em Missão Velha, 92 engenhos produziam 3,5 toneladas de rapadura; 32 engenhos de Juazeiro do Norte 2,3 toneladas ; e em jardim, 42 engenhos entregavam 2,17 toneladas por ano. Os cinco colocavam mais de 2.203 litros de aguardente no mercado” (Fonte: Diário do Nordeste/ Fortaleza, Ceará – Domingo, 24 de julho de 2011).
Hoje só existem cerca de 12 engenhos em Barbalha que fazem rapadura temperada com castanha de caju e amendoim para venderem aos romeiros de Juazeiro que levam tudo para o sertão!
A fabricação da rapadura passa pelo seguinte processo: a cana é moída pelo engenho de ferro puxado a energia elétrica de Paulo Afonso. Uma vez espremida a cana, a garapa passa por uma fornalha que tem 9 tachos de ferro sobre fogo à lenha. Nas caldeiras iniciais, a garapa é purificada, retirando-lhe a chamada tiborna; em seguida, é fervida e transformada em mel que é cuidadosamente temperado até o tacho do “ponto” que fica capaz de ser lançado nas gamelas, mexido por dois caixeadores e lançado nas caixas tomando o formato de rapadura de 800 gramas que, esfriadas, são lançadas no tendal já secas, enxutas, prontas para o consumo.
Durante este processo, usa-se “dicuada” que é a água com cal virgem extraído no próprio engenho a partir de pedra de calcário, para fazer a rapadura ficar “trincada”, isto é, dura e gotas de óleo de mamona para o “corte” do “ponto”. Tudo isto empiricamente, não se sabendo o real por que deste processo. Recebeu-se isto do passado, também empiricamente e por tradição. Os caldeireiros são experimentados neste mister e o “mestre”do “ponto”é uma função que só pode ser exercida por quem é “formado” naquele difícil mister. O engenho que não tiver um bom “mestre” não tem mercado para o seu produto e isto vem desde 1875.
Napoleão Tavares Neves.
Barbalha, 24.07.11.
(assinado em baixo)
Fabricação de Rapadura
A cultura canavieira do Cariri que já é coisa do passado, infelizmente, levando trapos doces da minha infância e juventude. E eu acredito esta “desgraça” ao “bicudo” que acabou com os algodoais do Nordeste cujos apanhadores de algodão eram os consumidores da nossa rapadura. Isto determinou o aviltamento do preço do produto de par com a Previdência Social que chegou aos engenhos obrigando aos senhores de engenho a assinarem as carteiras de trabalho dos seus cerca de 50 operários diários.
 “Em 1954, conforme Figueiredo Filho, o Cariri possuía em operação 284 engenhos, a força motriz, 12 movidos a bois e seis engenhos d’água – em Barbalha, Crato, Missão velha, Juazeiro do Norte e Jardim. Os 65 engenhos de Barbalha produziam 8,52 toneladas de rapadura e os 75 do Crato, 5,975 toneladas do produto. Em Missão Velha, 92 engenhos produziam 3,5 toneladas de rapadura; 32 engenhos de Juazeiro do Norte 2,3 toneladas ; e em jardim, 42 engenhos entregavam 2,17 toneladas por ano. Os cinco colocavam mais de 2.203 litros de aguardente no mercado” (Fonte: Diário do Nordeste/ Fortaleza, Ceará – Domingo, 24 de julho de 2011).
Hoje só existem cerca de 12 engenhos em Barbalha que fazem rapadura temperada com castanha de caju e amendoim para venderem aos romeiros de Juazeiro que levam tudo para o sertão!
A fabricação da rapadura passa pelo seguinte processo: a cana é moída pelo engenho de ferro puxado a energia elétrica de Paulo Afonso. Uma vez espremida a cana, a garapa passa por uma fornalha que tem 9 tachos de ferro sobre fogo à lenha. Nas caldeiras iniciais, a garapa é purificada, retirando-lhe a chamada tiborna; em seguida, é fervida e transformada em mel que é cuidadosamente temperado até o tacho do “ponto” que fica capaz de ser lançado nas gamelas, mexido por dois caixeadores e lançado nas caixas tomando o formato de rapadura de 800 gramas que, esfriadas, são lançadas no tendal já secas, enxutas, prontas para o consumo.
Durante este processo, usa-se “dicuada” que é a água com cal virgem extraído no próprio engenho a partir de pedra de calcário, para fazer a rapadura ficar “trincada”, isto é, dura e gotas de óleo de mamona para o “corte” do “ponto”. Tudo isto empiricamente, não se sabendo o real por que deste processo. Recebeu-se isto do passado, também empiricamente e por tradição. Os caldeireiros são experimentados neste mister e o “mestre”do “ponto”é uma função que só pode ser exercida por quem é “formado” naquele difícil mister. O engenho que não tiver um bom “mestre” não tem mercado para o seu produto e isto vem desde 1875.
Napoleão Tavares Neves.
Barbalha, 24.07.11.
(assinado em baixo)

05 setembro 2011

Caravanas Sertanejas II
O sítio Saco, de Joaquim Neves, limita-se com o sítio Saquinho, do Coronel Né Rosendo, meu avô. De uma casa avista-se a outra separadas por 2 Kms de canavial outrora.
Assim sendo, eu era o primogênito de uma casa e o caçula da outra com a vida que pedi a Deus! Muita fartura, muito amor e carinho sobrando! Onde anoitecesse eu dormia, pois tinha dois quartos, duas escovas, duas redes, tudo em duplicata.
Pois bem, a caravana sertaneja de meu Pai antecedia à caravana sertaneja do meu avô, de tal modo que eu descia para o sertão com meu Pai e no João Vieira ficava esperando a caravana sertaneja do meu AVÔ, mais ou menos 20 dias depois. Quando Pai Né descia, passava no João Vieira para um lanche e ai eu entrava na sua caravana para a fazenda Mandacarú, duas léguas depois do João Vieira.
No percurso havia mais um atrativo: o rio jardim que descia na direção de Jaty. Muitas vezes o rio estava em cheia, a depender do inverno. Aí agente ficava na beira do rio esperando que a cheia baixasse para passarmos com água na altura do estribo das selas dos animais. Era o colorido da aventura! Chegava-se na fazenda Mandacarú por volta das 17 horas. Aí tudo decorria como no João Vieira. Vez por outra eu selava o meu cavalo e ficava transitando entre as duas fazendas.
Na fazenda mandacaru era uma planura só! Na Semana Santa, realmente toda feriada, havia caçadas de abelhas silvestres. Passava-se o dia na mata virgem com o caçador de abelhas, Joaquim Bacamarte, que logo encontrava abelhas silvestres de mel delicioso: abelha branca, mandassaia, cupira, etc., todas já expulsas do sertão pela abelha italiana, predadora e agressiva, inclusive para o homem. 500 picadas de uma abelha italiana levam a óbito! Para quem é alérgico basta uma ferroada!
Recentemente, fui ver a fazenda mandacaru, hoje de um primo Médico e senti uma nostálgica saudade da meninice ali em parte vivida! Os tempos modernos carregaram parte do romantismo do sertão! E aqui é o jeito repetir mestre Guimarães Rosa: NO VIVER TUDO CABE!
Barbalha, 14.7.2.11. Napoleão Tavares Neves.
(assinado em baixo)
Caravanas Sertanejas II
O sítio Saco, de Joaquim Neves, limita-se com o sítio Saquinho, do Coronel Né Rosendo, meu avô. De uma casa avista-se a outra separadas por 2 Kms de canavial outrora.
Assim sendo, eu era o primogênito de uma casa e o caçula da outra com a vida que pedi a Deus! Muita fartura, muito amor e carinho sobrando! Onde anoitecesse eu dormia, pois tinha dois quartos, duas escovas, duas redes, tudo em duplicata.
Pois bem, a caravana sertaneja de meu Pai antecedia à caravana sertaneja do meu avô, de tal modo que eu descia para o sertão com meu Pai e no João Vieira ficava esperando a caravana sertaneja do meu AVÔ, mais ou menos 20 dias depois. Quando Pai Né descia, passava no João Vieira para um lanche e ai eu entrava na sua caravana para a fazenda Mandacarú, duas léguas depois do João Vieira.
No percurso havia mais um atrativo: o rio jardim que descia na direção de Jaty. Muitas vezes o rio estava em cheia, a depender do inverno. Aí agente ficava na beira do rio esperando que a cheia baixasse para passarmos com água na altura do estribo das selas dos animais. Era o colorido da aventura! Chegava-se na fazenda Mandacarú por volta das 17 horas. Aí tudo decorria como no João Vieira. Vez por outra eu selava o meu cavalo e ficava transitando entre as duas fazendas.
Na fazenda mandacaru era uma planura só! Na Semana Santa, realmente toda feriada, havia caçadas de abelhas silvestres. Passava-se o dia na mata virgem com o caçador de abelhas, Joaquim Bacamarte, que logo encontrava abelhas silvestres de mel delicioso: abelha branca, mandassaia, cupira, etc., todas já expulsas do sertão pela abelha italiana, predadora e agressiva, inclusive para o homem. 500 picadas de uma abelha italiana levam a óbito! Para quem é alérgico basta uma ferroada!
Recentemente, fui ver a fazenda mandacaru, hoje de um primo Médico e senti uma nostálgica saudade da meninice ali em parte vivida! Os tempos modernos carregaram parte do romantismo do sertão! E aqui é o jeito repetir mestre Guimarães Rosa: NO VIVER TUDO CABE!
Barbalha, 14.7.2.11. Napoleão Tavares Neves.
(assinado em baixo)

20 agosto 2011

Primeiro Dia De Moagem, No Saco, SEMPRE Uma Bela Farra!
Na semana que antecedia ao 10 dia de moagem no Saco era uma festa só. Um verdadeiro formigueiro humano, em agitação e atividade!
Mestre Procópio aparelhava as cangalhas dos 10 cambiteiros de cana, mestre Luiz consertava os tachos da fornalha, mestre Manoel Raimundo consertava a fornalha, Pedro frança, o Carreiro, encostava lenha da serra para a fornalha, Zequinha, maquinista, lubrificava o locomóvel, mestre Miguel Martins lubrificava e apontava o engenho e assim, cada um fazia a sua parte.
Na véspera do dia marcado, meu Pai marcava o partido de canas mais maduras para o corte de cana: 10 cortadores, com facão rabo de galo, iniciavam o corte da cana que era transportada para o engenho por 10 cambiteiros em 20 burros. O CAMBITEIRO É A ALMA DANADA DOS ENGENHOS!
No dia seguinte, por volta das 5 da manhã, Zequinha botava fogo no locomóvel e dava o apito inicial da moagem! Toda a redondeza já ficava sabendo que naquele dia havia garapa, rapadura, alfinim, cana doce, etc..
Logo ao primeiro apito chegavam:
Manoel Bem, mestre do ponto da rapadura,
João Nunes e Joaquim de Joana, caldeireiros,
Zé Galo, metedor de fogo na fornalha,
Duda e João Jorvino, caxeadores de rapadura,
Manoel Fraso, metedor de cana,
Manoel Bacamarte, tirador de bagaço verde,
Antônio Jacinto e Pedro Jacinto, carregadores do bagaço seco para o fogo da fornalha.
Era uma farra, com todos animados e cada um procurando fazer o melhor.
À tardinha, contava-se a rapadura, mais ou menos 20 cargas de 100 unidades. Esta labuta perdurava por 5 meses. No final 1.500 cargas de rapaduras. Cada trabalhador levava para casa; rapadura quente, garapa, mel de engenho.
A noite caia para, no dia seguinte tudo ser repetido.
Havia ainda o aguador das canas, em levada de barro trazendo água da nascente, para irrigar por gravidade o canavial.
Havia também dois operários que aceiravam os cortes de cana para a queima do palhiço.
No nosso engenho trabalhavam diariamente cerca de 40 operários.
Isto durante os 4 meses de seca.
Barbalha, 14.7.2.11. Napoleão Tavares Neves.
(assinado em baixo)
Primeiro Dia De Moagem, No Saco, SEMPRE Uma Bela Farra!
Na semana que antecedia ao 10 dia de moagem no Saco era uma festa só. Um verdadeiro formigueiro humano, em agitação e atividade!
Mestre Procópio aparelhava as cangalhas dos 10 cambiteiros de cana, mestre Luiz consertava os tachos da fornalha, mestre Manoel Raimundo consertava a fornalha, Pedro frança, o Carreiro, encostava lenha da serra para a fornalha, Zequinha, maquinista, lubrificava o locomóvel, mestre Miguel Martins lubrificava e apontava o engenho e assim, cada um fazia a sua parte.
Na véspera do dia marcado, meu Pai marcava o partido de canas mais maduras para o corte de cana: 10 cortadores, com facão rabo de galo, iniciavam o corte da cana que era transportada para o engenho por 10 cambiteiros em 20 burros. O CAMBITEIRO É A ALMA DANADA DOS ENGENHOS!
No dia seguinte, por volta das 5 da manhã, Zequinha botava fogo no locomóvel e dava o apito inicial da moagem! Toda a redondeza já ficava sabendo que naquele dia havia garapa, rapadura, alfinim, cana doce, etc..
Logo ao primeiro apito chegavam:
Manoel Bem, mestre do ponto da rapadura,
João Nunes e Joaquim de Joana, caldeireiros,
Zé Galo, metedor de fogo na fornalha,
Duda e João Jorvino, caxeadores de rapadura,
Manoel Fraso, metedor de cana,
Manoel Bacamarte, tirador de bagaço verde,
Antônio Jacinto e Pedro Jacinto, carregadores do bagaço seco para o fogo da fornalha.
Era uma farra, com todos animados e cada um procurando fazer o melhor.
À tardinha, contava-se a rapadura, mais ou menos 20 cargas de 100 unidades. Esta labuta perdurava por 5 meses. No final 1.500 cargas de rapaduras. Cada trabalhador levava para casa; rapadura quente, garapa, mel de engenho.
A noite caia para, no dia seguinte tudo ser repetido.
Havia ainda o aguador das canas, em levada de barro trazendo água da nascente, para irrigar por gravidade o canavial.
Havia também dois operários que aceiravam os cortes de cana para a queima do palhiço.
No nosso engenho trabalhavam diariamente cerca de 40 operários.
Isto durante os 4 meses de seca.
Barbalha, 14.7.2.11. Napoleão Tavares Neves.
(assinado em baixo)

31 julho 2011

A Aventura do Papagaio “Diura”
O coronel Né Rosendo era o mais opulento fazendeiro de Porteiras. Senhor de muitas terras, era acatado por seu pacifismo e mansidão. Tanto é que se cantava nos pés de serra de Porteiras:
“No pé da serra
Todo mundo paga renda;
Só não paga Né Rosendo,
Que é o dono da fazenda!”
Chefe político do antigo PSD era getulista e dono de muitos votos por favores prestados. Tendo cerca de 100 moradores, viajava-se do seu engenho, no sítio Saco, até a fazenda Mandacarú somente sobre terras suas!
Certo dia, Né Rosendo marcou o dia da sua descida para o sertão. Era janeiro de 1942. Inverno copioso, muito pasto, riachos cantantes, gado gordo, 100 vacas paridas no curral. E eu vivia como príncipe do meio de tudo isto. Na semana da viagem foi aquela azáfama de todos, preparando a alegre comitiva.
No dia marcado, saímos todos do sítio Saco às 7 horas da manhã. À frente dos cargueiros ia o velho Antônio Farosa, comandando um pelotão de 15 burros com cargas.
O coronel Né Rosendo, no seu burro “Automóvel”, ia à frente do cortejo, sempre acatado por todos.
No meio dos burros com cargas estava o burro “Paquete”, aquele mesmo que carregava as minhas malotas para o colégio em Crato. No meio da sua carga de malas de couro, ia o papagaio “Diura”, inquieto e falador.
Tudo decorria em paz, mas ao chegarmos a romântica fazenda Mandacarú, notou-se, de logo, a falta de “Diura”. Foi um Deus nos acuda! O que teria acontecido? Conjecturas foram lançadas. Cada um dava a sua opinião. Foi ai que o coronel Né Rosendo mandou dois rapazes a cavalo percorrerem o caminho inverso da comitiva. Na saída, ouvi quando ele disse: “Vão sempre conversando que ele vai responder de onde estiver”.
Assim foi feito e nós ficamos na torcida por um final feliz daquela novela.
Os rapazes saíram e nos altos da fazenda canoas, há légua e meia da nossa fazenda, ao passarem por baixo de um umbuzeiro, ouviram o papagaio gritar: “Diura”, ...Diura”, ... . Assim, quando a noite ia chegando, o pessoal todo se alvoroçou com a chegada dos dois portadores trazendo “Diura” no dedo. Foi uma alegria!
A vida rural tem os seus encantos!
Barbalha, 16.7.2.11. Napoleão Tavares Neves
(assinado em baixo)

A Aventura do Papagaio “Diura”
O coronel Né Rosendo era o mais opulento fazendeiro de Porteiras. Senhor de muitas terras, era acatado por seu pacifismo e mansidão. Tanto é que se cantava nos pés de serra de Porteiras:
“No pé da serra
Todo mundo paga renda;
Só não paga Né Rosendo,
Que é o dono da fazenda!”
Chefe político do antigo PSD era getulista e dono de muitos votos por favores prestados. Tendo cerca de 100 moradores, viajava-se do seu engenho, no sítio Saco, até a fazenda Mandacarú somente sobre terras suas!
Certo dia, Né Rosendo marcou o dia da sua descida para o sertão. Era janeiro de 1942. Inverno copioso, muito pasto, riachos cantantes, gado gordo, 100 vacas paridas no curral. E eu vivia como príncipe do meio de tudo isto. Na semana da viagem foi aquela azáfama de todos, preparando a alegre comitiva.
No dia marcado, saímos todos do sítio Saco às 7 horas da manhã. À frente dos cargueiros ia o velho Antônio Farosa, comandando um pelotão de 15 burros com cargas.
O coronel Né Rosendo, no seu burro “Automóvel”, ia à frente do cortejo, sempre acatado por todos.
No meio dos burros com cargas estava o burro “Paquete”, aquele mesmo que carregava as minhas malotas para o colégio em Crato. No meio da sua carga de malas de couro, ia o papagaio “Diura”, inquieto e falador.
Tudo decorria em paz, mas ao chegarmos a romântica fazenda Mandacarú, notou-se, de logo, a falta de “Diura”. Foi um Deus nos acuda! O que teria acontecido? Conjecturas foram lançadas. Cada um dava a sua opinião. Foi ai que o coronel Né Rosendo mandou dois rapazes a cavalo percorrerem o caminho inverso da comitiva. Na saída, ouvi quando ele disse: “Vão sempre conversando que ele vai responder de onde estiver”.
Assim foi feito e nós ficamos na torcida por um final feliz daquela novela.
Os rapazes saíram e nos altos da fazenda canoas, há légua e meia da nossa fazenda, ao passarem por baixo de um umbuzeiro, ouviram o papagaio gritar: “Diura”, ...Diura”, ... . Assim, quando a noite ia chegando, o pessoal todo se alvoroçou com a chegada dos dois portadores trazendo “Diura” no dedo. Foi uma alegria!
A vida rural tem os seus encantos!
Barbalha, 16.7.2.11. Napoleão Tavares Neves
(assinado em baixo)

13 julho 2011


Era 1942. Eu tinha 12 anos e me realizava campeando gado com os nossos vaqueiros no topo da Chapada do Araripe, do Saco, onde meu avô tinha 800 reses soltas no larga da serra e meu pai 300 reses! Quatro bons vaqueiros bem montados e arreados cuidavam do gado. Eu sempre os acompanhava no meu cavalo “Roxo”.
Um belo dia de sábado, descemos para o João Vieira levando 200 reses para soltar no sertão. Meu pai na guia da manada, eu no coice e de cada lado dois vaqueiros: José Félix, José Isidio, José Raimundo e José Gabriel que só viviam desta profissão e sorteavam bezerros de 4 um, isto é: de cada 4 bezerros nascidos, um era do vaqueiro, mais rendosa atividade de uma fazenda à época. Pois bem, a viagem ia serena e animada, com o tilintar dos chocalhos, o aboio dos vaqueiros e o berro dos bezerros! Uma animação danada! Ao atingirmos o lambedouro doMulungu onde o gado parava espontaneamente para lamber a terra salgada do lambedouro, satisfazendo às suas carências de sais minerais, um touro mestiço, dono exclusivo do pedaço, inopinadamente, esturra, com as patas cava o chão e retorce as moitas com os chifres. Toda a manada o imita com igual fúria! Paramos todos! O vaqueiro José Félix, sempre muito místico, tira o seu chapéu de couro e o coloca no peito! O silêncio humano é total! A algazarra do gado é contagiante e o seuurro langoroso é nostálgico.
Depois de alguns minutos, o touro toma a dianteira da manada que o acompanha na direção do João Vieira. Só aí descobrimos a causa de tudo aquilo: era o esqueleto recente de uma rês que morreu ali no Lambedouro do Mulungu!
Fiquei estático diante da grandeza daquele espetáculo natural! Pena que não houvesse na época gravador para captar a grandeza até musical do “choro do gado”. Sinceramente, nunca ouvi humanos chorarem tão
convulsivamente os seus mortos. Sim, a natureza tem das suas!
Barbalha, 03/07/2011
Napoleão Tavares Neves
(Assinado em baixo).

Era 1942. Eu tinha 12 anos e me realizava campeando gado com os nossos vaqueiros no topo da Chapada do Araripe, do Saco, onde meu avô tinha 800 reses soltas no larga da serra e meu pai 300 reses! Quatro bons vaqueiros bem montados e arreados cuidavam do gado. Eu sempre os acompanhava no meu cavalo “Roxo”.
Um belo dia de sábado, descemos para o João Vieira levando 200 reses para soltar no sertão. Meu pai na guia da manada, eu no coice e de cada lado dois vaqueiros: José Félix, José Isidio, José Raimundo e José Gabriel que só viviam desta profissão e sorteavam bezerros de 4 um, isto é: de cada 4 bezerros nascidos, um era do vaqueiro, mais rendosa atividade de uma fazenda à época. Pois bem, a viagem ia serena e animada, com o tilintar dos chocalhos, o aboio dos vaqueiros e o berro dos bezerros! Uma animação danada! Ao atingirmos o lambedouro doMulungu onde o gado parava espontaneamente para lamber a terra salgada do lambedouro, satisfazendo às suas carências de sais minerais, um touro mestiço, dono exclusivo do pedaço, inopinadamente, esturra, com as patas cava o chão e retorce as moitas com os chifres. Toda a manada o imita com igual fúria! Paramos todos! O vaqueiro José Félix, sempre muito místico, tira o seu chapéu de couro e o coloca no peito! O silêncio humano é total! A algazarra do gado é contagiante e o seuurro langoroso é nostálgico.
Depois de alguns minutos, o touro toma a dianteira da manada que o acompanha na direção do João Vieira. Só aí descobrimos a causa de tudo aquilo: era o esqueleto recente de uma rês que morreu ali no Lambedouro do Mulungu!
Fiquei estático diante da grandeza daquele espetáculo natural! Pena que não houvesse na época gravador para captar a grandeza até musical do “choro do gado”. Sinceramente, nunca ouvi humanos chorarem tão
convulsivamente os seus mortos. Sim, a natureza tem das suas!
Barbalha, 03/07/2011
Napoleão Tavares Neves
(Assinado em baixo).